Análises

Death Stranding – Análise

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Foi durante a E3 de 2016 que o mundo viu ser anunciado Death Stranding, o primeiro jogo onde Hideo Kojima (Metal Gear Solid) pôde controlar a maré à sua maneira. Todos ficaram completamente confusos com o que poderia ser e foi sempre assim durante aproximadamente dois anos. Só nos últimos meses é que começaram a surgir as primeiras explicações sobre a narrativa e a ideia base do título mas, ainda assim, tudo estava longe de ser claro como a água. Na verdade, esta maré é bem densa, escura e consegue absorver qualquer um.

 

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Uma narrativa com alicerces na Humanidade

Death Stranding tem um fio condutor narrativo um pouco atabalhoado, mas não no sentido pejorativo. Durante largas horas, tudo está muito enevoado e apenas com o passar do tempo, o arco-íris presente no jogo vai poder ser avistado. Depois de diversas explosões com um enorme impacto no mundo e em tudo o que nele existe, das quais resultou o evento da Maré de Morte,  a civilização ficou dispersa e o mundo começou a ser habitado por seres paranormais.

O jogo coloca-nos na pele de Sam Bridges, um estafeta (ou o que preferirem chamar) sem o mínimo interesse por pessoas ou pelo seu país. É aqui que as coisas ficam interessantes, pois o seu objetivo é conectar toda uma nação, apesar do seu constante estado de espírito “estou-me a marimbar para isto tudo”. De salientar que o personagem sofre de afefobia, a qual consiste no receio em ser tocado por outra pessoa. Posto isto, as condições estão reunidas para uma aventura intensa, onde nem o peso de unir as Cidades Unidas da América tem o mínimo de interesse para o personagem principal.

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Muito mais do que um “rapaz de entregas”

À primeira vista, estamos perante uma jogabilidade simples e é assim que a vivemos durante algumas horas. Como já referi, o objetivo é unir todo um país e, para isso, é necessário vestirmos o fato de “carteiro” e partir em busca de diversas moradas – locais onde vivem outros humanos isolados de tudo e mais alguma coisa. Inicialmente, somos obrigados a percorrer muitos quilómetros sem qualquer tipo de transporte. As distâncias não são enormes, mas essa sensação pode acontecer nos primeiros tempos, pelo simples facto de não estarmos enturmados com o mundo de Death Stranding.

Aquilo que pode parecer monótono, à primeira vista, foi na minha opinião, algo divertido e que me fez viver a experiência de uma forma muito mais intensa. Adorei a ideia de vaguear pelo desconhecido e em terrenos que me eram desfavoráveis, para além de não saber que perigos poderia encontrar. As primeiras viagens foram sempre muito intensas mas, ao mesmo tempo, também muito relaxantes com a ajuda da extraordinária banda sonora.

 

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Com o tempo, vamos desbloqueando novas ferramentas e melhoramentos, os quais facilitam o nosso trabalho e sobrevivência num mundo que tem tanto de calmo, quanto agressivo, seja psicológica ou fisicamente. Com o progresso do jogo, fica mais fácil sobreviver em terrenos hostis, seja de forças humanas inimigas ou paranormais. Para além do equipamento melhorado e armamento, também ficam disponíveis meios de transporte. O jogo fica claramente mais acessível e interessante, uma vez que todos estes fatores externos começam a surgir. Porém, é necessário esperar algumas horas até que possam usufruir de tudo isto. Como se já não houvesse poucos fatores em jogo, alguns equipamentos sofrem desgaste (ex. botas), tornando a tarefa um pouco mais complicada. É preciso tomar atenção a este e outros aspetos, de forma a que o nosso trabalho possa sempre correr da melhor forma.

 

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A gestão da mercadoria é crucial

Transportar algo entre o ponto A e B pode ser bastante simples. Porém, existe um peso limite que podemos carregar. Se estivermos mais carregados do que é sugerido, tudo fica mais difícil. Qualquer movimento que queiram fazer, seja andar, correr ou escalar, fica consideravelmente mais exigente.

Para complicar ainda mais, para além das “encomendas”, também todo o equipamento que transportam adiciona ao peso total. Sejam armas, ferramentas, entre outras coisas, tudo adiciona ao valor final. É aqui que deve existir uma maior gestão de recursos. Acreditem que não vão querer fazer uma viagem a pé e estar sempre preocupados em não cair. Esta deve ser uma das razões pela qual se encontram muitos itens espalhados pelo terreno. Em último caso, podem sempre largar mercadoria no caminho de forma a aliviar o peso e facilitar a vossa viagem. É altamente aconselhável andar o mais leve possível para que o vosso percurso, principalmente se for a andar, seja o mais tranquilo possível.

Obviamente que existem equipamentos auxiliares no equilíbrio ou que permitem carregar mais peso, mas eles só aparecem com o avançar do jogo. Na verdade, tudo isto é relativo se simplesmente decidirem usar um meio de transporte. Eu usei maioritariamente motas, pois conseguem chegar facilmente a qualquer lado. O uso dos veículos, também me fez recear muito menos o inimigo, pois rapidamente poderia fugir de situações de perigo. Isto quando era possível…

 

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A união faz a força

Nos últimos meses, Kojima passou a mensagem que o jogo já teria começado e que já existiria uma cooperação entre os jogadores. Na verdade, a forma como a cooperação humana está implementada no jogo, faz com que a interação entre os jogadores seja de extrema importância no prosseguir da aventura.

Embora não exista um modo multiplayer, a vertente online permite que os jogadores partilhem diversa informação entre si. Sejam mensagens ou estruturas no terreno de jogo, há uma sensação de que nunca estamos sozinhos no mundo, apesar de não existir contacto direito com outros jogadores.

 

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Podemos deixar uma mensagem sobre algo para outras pessoas, ou podemos ir mais longe e partilhar estruturas específicas e formas de superar diversos obstáculos na natureza. Precisam escalar algo mais íngreme? Posso deixar uma corda no topo para subir ou descer, ou quem sabe, até uma escada. Posso criar uma gerador que permite carregar a bateria do vosso transporte ou ainda, uma “casa” onde podem dormir para restaurar a vossa energia, o vosso sangue, entre outras coisas.

Mas a cooperação não fica por aqui. Também é possível apanhar muitos “pacotes” perdidos no mundo e levá-los ao seu destino final. Muitas vezes, estas “encomendas” pertencem a outros jogadores e eles serão notificados do nosso trabalho. Se preferirem, podem depositar num cacifo partilhado e esperar que outro jogador qualquer faça o trabalho. Outra situação interessante, é o facto de ser possível fazer um pedido de equipamento específico em qualquer lugar. Feito esse pedido, é esperar que outro jogador entregue os materiais ou equipamentos. Mais uma vez, o jogo apela à união de todos e continua a insistir na cooperação a tempo inteiro.

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Os inimigos são apenas uma pequena parte da aventura

Todos presenciámos nos diversos trailers, aqueles inimigos diferentes do habitual e capaz de arrepiar em determinados momentos do jogo. Imaginem estar a meio de uma entrega e começar a chover. Chover é uma coisa normal, seja na vida real ou num jogo. Contudo, chover em Death Stranding pode facilmente significar inimigos. Os famosos BT’s, são inimigos que metem respeito pois é necessário parar de respirar para que estes não nos identifiquem. É preciso ter atenção para não ficar quase sem fôlego, pois ao voltar a respirar novamente, a inspiração irá fazer mais ruído que o normal e irá captar a atenção do inimigo. Estes conseguem ser perturbadores nas primeiras horas de jogo, mas assim que nos começamos a habituar e a obter ferramentas para os combater, então a situação fica mais fácil de ser confrontada.

Quanto aos inimigos humanos, inicialmente também não podemos fazer grande coisa para além de fugir. Com o progresso da história, vamos desbloqueando diversos tipos de armas para os combater, embora fique a vosso critério fazê-lo ou não. Adorei a arma que dispara uma corda e os prende, deixando-os imóveis no chão.

 

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BB – O nosso companheiro de viagem

BB (Bridge Baby) é o nosso companheiro de viagem e que nos ajuda a sentir os perigos paranormais, entre outras funcionalidades. É também com a sua ajuda que temos acesso ao mapa do jogo e informação de tudo. É um quase como um posto de turismo e muito mais importante do que aparenta inicialmente. É preciso ter algum cuidado com o BB, pois quando em situações de maior tensão, começa a ficar stressado e, a partir de certo momento, deixa de nos conseguir ajudar. A solução é aconchegá-lo ou simplesmente descansarmos os dois para repor as energias.

 

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Um leque de personagens cativantes

É impossível não falar sobre Death Stranding e mencionar o incrível conjunto de personagens que nele respiram. O leque de atores presente neste título é qualquer coisa de se tirar o chapéu.  Obviamente que isso não garante qualidade, mas ajuda claramente.

Norman Reedus é obviamente o grande destaque, dando o corpo e voz ao personagem principal Sam Bridges. Mads Mikkelsen é outro nome conhecido de algum público e que faz o papel de Cliff Unger – o soldado. Outra das caras impossíveis de não reconhecer é o realizador Guillermo del Toro, o qual tem um papel bastante ativo em toda a narrativa. Não esquecer Troy Baker, a pessoa que dá voz a um vilão do jogo, bem como ao Joel de The Last of us. Existe toda uma oferta de carismáticos personagens nesta alucinante aventura onde, uns mais que outros, vos irão deixar marcados ao longo de uma campanha muito única.

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Cenários repletos de mistério e (quase) solidão

Uma das primeiras coisas que me deixou deslumbrado foram as imagens iniciais dos cenários logo no princípio do jogo. Eram visualmente impressionantes, proporcionando uma sensação de realismo incrível, mesmo estando a jogar numa Playstation 4 normal.

O mapa do jogo é relativamente grande, embora não excessivamente, e contém diversas zonas com cores e caracterização distintas. Sejam as verdes planícies ou as altas e frias montanhas cobertas de neve e habitadas por tempestades das mesmas, nunca senti uma fadiga visual.

Quando iniciamos a aventura, as paisagens são constituídas simplesmente pela natureza, mas com o progresso do jogo, vamos começando a ver estruturas deixadas para outros jogadores. Aquilo que parece sem vida inicialmente, acaba por se invadido por estruturas que acabam por nos conectar a todos de certa forma, afastando a sensação de isolamento.

A apresentação do jogo é qualquer coisa de fantástico e não estou propriamente a falar dos gráficos. Refiro-me aos ângulos das “filmagens” e os imensos pormenores em cada cena. Nota-se que um vertente artística bem presente e com consciência naquilo que estava a fazer.

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No que toca ao áudio, a banda sonora é de excelência e encaixa perfeitamente no ambiente do jogo. Na maioria dos casos, são músicas mais calmas e muitas começam a tocar em determinados momentos perfeitos para tal. Momentos estes sempre marcados pela partida para uma nova entrega ou quando estamos prestes a chegar ao nosso destino.

As performances das vozes de todos os personagens principais é de alta qualidade, mas isso é algo que acaba por não surpreender tendo em conta os nomes presentes no cast. Destaque para a presença de uma dobragem em português, com especial menção para Pêpê Rapazote, o ator que dá voz a Sam Bridges.

 

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Nem toda a arte Japonesa é perfeita

Mas nem tudo é perfeito em Death Stranding. Um dos aspetos que mais me aborreceu foi o facto de termos de carregar “ok” várias vezes para confirmar a entrega de uma encomenda. Por entre cutscenes e conversa com os destinatários, é um processo de vários minutos mas que, felizmente, podemos passar à frente o vídeo e as conversas também. O mesmo se aplica ao aceitar uma encomenda, pois temos de confirmar a missão, confirmar que estamos a aceitar o pacote e onde o queremos colocar (costas, braços, etc). É tudo um processo um pouco entediante, mas onde não há volta a dar.

Outro dos aspetos menos bons tem lugar no quarto onde descansamos. Existem diversas cutscenes ao entrar, as quais podem ser passadas à frente felizmente, mas é preciso confirmar tal ação para cada uma delas. O mesmo se aplica quando estamos a tomar banho onde podemos passar a cutscene umas duas ou três vezes à frente até podermos controlar novamente o personagem. Tudo isto podia ser feito ao pressionar uma vez qualquer botão mas, ao invés disso, parece que quase criaram um mini jogo do “passa o vídeo à frente”. Muitos dos processos no quarto passam um pouco por esta rotina e apesar de o espaço ser interessante de se explorar, é um pouco grindy termos que andar a passar sempre tudo à frente. Os vídeos são sempre iguais e é aqui que reside o problema deste aspeto negativo.

Infelizmente, Sam Bridges passa muito tempo simplesmente a escutar os outros, nomeadamente na conclusão das entregas. Faz lembrar um pouco os jogos de antigamente, onde o personagem principal nem fala. Muitas vezes, até lhe dizem tudo o que querem e ele nem abre a boca para se defender….

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Uma experiência arriscada, mas com resultados positivos

Após quase 40 horas de jogo, posso afirmar facilmente que este é um jogo único na indústria e que, para o bem e para o mal, servirá de ponto de referência para o futuro. A sua narrativa é dos pontos mais fortes do título, mas isso acaba por não ser uma surpresa vindo de quem vem. Todavia, penso que podia ter sido um pouco mais curta e nas últimas duas ou três horas, senti que já foi um pouco arrastado em certos momentos. Não quero com isto dizer que o fim foi mau, muito pelo contrário. Senti que durou um pouco mais do que devia, mas não tirava nada dos momentos finais.

A mensagem que o jogo pretende transmitir também é bastante forte e aplica-se a várias situações no mundo atualmente. Na minha opinião, Death Stranding incentiva a união entre as pessoas (neste caso jogadores) para que todos juntos, possam tornar o mundo num lugar melhor.

 

 

Apesar de todas as suas qualidades, Death Stranding acaba por ser um jogo que não é para todos. As suas primeiras horas podem afastar muitos jogadores, pois o ritmo inicial é um pouco vagaroso. A jogabilidade base acaba por ser um pouco repetitiva, mas os meios de transporte acabam por atenuar o processo. A melhoria das ferramentas e o aparecimento de armas, também ajudam a melhorar o que inicialmente pode parecer aborrecido.

Death Stranding tem um brilho muito próprio. A sua apresentação, o seu conjunto de personagens carismáticos e a jogabilidade peculiar resultam numa experiência como poucas no que toca aos videojogos. Foi dado certamente um novo passo no que toca à evolução dos videojogos como experiências interativas.

 

positivo Excelente conjunto de personagens
positivo Muitas ferramentas para ajudar na tarefa de entrega
positivo Muitas mecânicas de jogo, para além de “entregar encomendas”
positivo Narrativa única
positivo Banda sonora

errado Repetição de diversas cutscenes em diversos momentos
errado A história podia ter sido encurtada
errado As horas iniciais não facilitam os menos persistentes

Data de Lançamento: 8 de Novembro de 2019
Produtora: Kojima Productions
Editora: Sony Interactive Entertainment (505 Games no PC)
Género: Ação, Aventura
Disponível para: Playstation 4 (PC em 2020)

Foi disponibilizada uma cópia do jogo para análise por parte da Playstation Portugal.

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