Entrevista ao estúdio de Back Then

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Foi no passado dia 29 de Janeiro que Outriders & RP Studios, na 5ª edição dos Prémios Playstation Talents em Portugal, venceram os prémios de Melhor Jogo de 2019 e Prémio Especial Games for Good com o jogo Back Then. Estamos a falar de um jogo com foco na grave doença de Alzheimer e que pode levar os jogadores a experienciar algo bastante diferente dentro dos videojogos.

Antes de começarmos, quero agradecer pelo tempo disponibilizado para responder a estas questões, principalmente numa dias tão atribulados como têm sido após a vossa vitória no concurso. Espero sinceramente que o desenvolvimento do jogo possa correr da melhor forma possível e que tenha bastante sucesso quando chegar a altura.

 

– Quero dar-vos os parabéns pelos dois prémios recebidos recentemente na 5ª edição dos Playstation Talents em Portugal. Qual a sensação de ver o vosso trabalho ser reconhecido?

Ruben: Numa palavra? Conflituoso. Tem sido uma explosão tão enorme de atenção, comentários, contactos e mais que eu e os outros ainda nem acreditamos que isto aconteceu. Estou simplesmente a ir na onda e, juntamente com o resto dos Outriders, não deixarmos o barco afundar agora.

Ter família a ver-nos em direto na tv é uma sensação que é difícil descrever em palavras, é aterrorizante num sentido, mas imensamente gratificante noutro.

 

 

– Para quem desconhece, podem explicar o que é Back Then?

Ruben: Back Then é um jogo com forte ênfase na narrativa que explora o que um docente com Alzheimer’s passa no seu dia-a-dia. Dando especial foco não só à doença em si, mas também à família, mostrando exemplos, o agravamento e as consequências ao longo do tempo, e como tudo culmina.

Isto é feito num estilo semelhante a jogos como “That Dragon, Cancer”, “What Remains of Edith Finch”, “Firewatch”, entre outros, mas com puzzles, enigmas e collectibles pelo meio, dando recompensas aos jogadores por explorarem tudo e ligarem todos os pontos soltos da narrativa.

 

– Como surgiu a ideia para este projeto, com o foco numa doença tão preocupante como Alzheimer?

Ruben: Era Janeiro de 2019, a Global Game Jam tinha acabado de começar, e foi organizada uma equipa para esse evento, a qual eventualmente se tornou na Outriders, o nosso estúdio.

Calebe: No primeiro dia nos reunimos todos em volta de uma mesa e começamos a escrever as ideias com base no tema da Jam: Home (Casa). Tivemos várias ideias e cartas jogadas em cima da mesa e, eventualmente, o Aquiles (nosso artista), deu uma ideia interessante. “E se isso se passa num lar de idosos, em que jogamos como um idoso numa cadeira de rodas?”

Ruben: A partir daí, queríamos ter uma mensagem mais pessoal no jogo, mas não sabíamos o quê em especifico, até descobrirmos que todos na equipa tem/tiveram família com Alzheimer’s. Fez todo o sentido termos isso como base para o jogo.

 

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– Pelo que me apercebi, vocês “trabalharam” diretamente com pessoas que vivem de perto com esta doença. Como foi essa experiência?

Calebe: Nós não trabalhamos com essas pessoas, nós vivemos com elas. São e eram membros das nossas famílias, pois infelizmente algumas já não estão mais entre nós. Para o Ruben era a bisavó Laurinda. Para mim foi a minha avó. Para o Carlos é o avô, e para o Aquiles foi a tia. Nós acompanhamos elas desde o início até os seus momentos finais. No meu caso, eu ainda estava no Brasil quando a minha avó foi diagnosticada com Alzheimer. Ambos ela e o meu avô acabaram por entrar num lar, e todos nós a acompanhamos até o fim. Ver a minha avó lentamente perder a consciência, perder a habilidade de andar, de falar e até de comer, não foi fácil, muito pelo contrário. Mas eu lembro-me de momentos em que ela… Voltava. Sem saber falar, ela olhava para nós e os seus olhos brilhavam! De alguma forma, ela se lembrava de nós nesses momentos e isso mudou a minha perspectiva sobre a doença. Por mais que ela possa não ter nos reconhecido em alguns dias, em que os seus olhos vagueavam pelos ares e não tinha reação ao chamá-la, ela ainda estava ali. Ela ainda era a minha avó.

 

– Muitas vezes, os videojogos são vistos como algo menos positivo. Porém, cada vez mais se vêm jogos capazes de ajudar em diversos aspetos, como o vosso. Qual a vossa opinião sobre a influência e preciosa ajuda que os videojogos podem ter no campo da saúde mental e física?

Ruben: Tal como outras vias de entretenimento, jogos tem um potencial incrível para contar e ensinar valores da sociedade. Temos o exemplo do Hellblade: Senua’s Sacrifice, que explora a perspectiva de uma personagem com esquizofrenia; Celeste, cujo jogo inteiro é uma metáfora para lidar com depressão, e muitos outros. Jogos para mim, sempre foram a junção de tudo o que é artístico, mas com um ponto a favor: o jogador é que controla a personagem principal – e só esse pequeno detalhe já vale imenso. Juntando-se experiências pessoais e uma mensagem forte por trás, e temos algo que pode ensinar às pessoas algo novo.

Creio que jogos estão meramente a começar a explorar este território pois até aqui, tinha-se sempre falta de tecnologia ou informação para fazer-se uma experiência baseada em doenças mentais. Mas tal como a sociedade no geral está a ficar mais apologista disso, também os jogos seguiram o mesmo caminho.

 

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– Há quanto tempo é que o jogo está a ser desenvolvido e quantas pessoas estão envolvidas?

Ruben: Estamos a fazer o jogo desde Junho do ano passado, porém a ideia nasceu em Janeiro na GGJ.

Somos 4 na equipa neste momento: Eu (Ruben), que sou responsável por Game Design, Relações Públicas e Programação; O Calebe, responsável pela Narrativa, Som e Música; o Carlos, responsável pelo 3D; e o Aquiles, responsável pela arte e os conceitos artísticos.

 

– Há planos para o lançamento de uma demo?

Ruben: Sim, temos altas ambições que iremos ter uma demo pouco tempo antes ou depois do jogo em si lançar. Até lá, a única maneira de testar o jogo é através de um formulário nosso disponível no discord do jogo.

 

– E previsão para o lançamento do jogo?

Ruben: É difícil dar uma data certa, pois estão constantemente a acontecer coisas novas que precisam da nossa atenção. Se tudo correr bem, lançaremos o jogo no final de 2020, início de 2021.

 

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– Para terminar, quais alguns dos vossos jogos favoritos e também se estão ansiosos por algum título que vá ser lançado em 2020.

Ruben: Jogos favoritos, Dead Space 2, Vampire The Masquerade: Bloodlines, Witcher 3, Bioshock, Amnesia: The Dark Descent, Resident Evil 7, e um shoutout ao WoW que jogo desde 2006.

Este ano estou deserto de experimentar o Cyberpunk 2077, o Doom: Eternal, a sequela do VTM:Bloodlines, Moons of Madness, Resident Evil 3 Remake e Wasteland 3.

Carlos: Jogo favorito de sempre, Road Trip Adventure PS2 pelas memórias que me trás de jogar com o meu pai.

Um jogo que antecipo para 2020 é claramente o Cyberpunk 2077 mas, ao mesmo tempo, estou curioso relativamente à F1 2020 porque eles compraram a Slighty Mad Studios e acho que ficaram com o Engine deles e o NETCode também, o que pode realmente mudar tudo… Ou pode simplesmente voltar a ser só mais um jogo em que muda as cores dos carros e nada mais…

Calebe: Os meus jogos favoritos de sempre são Super Smash Bros. Melee, a trilogia Dark Souls, NMRiH, Mount & Blade: Warband, Total War: Rome II, e por incrível que pareça, Minecraft.

Jogos que estou ansioso para jogar este ano são Mount & Blade II: Bannerlord, Cyberpunk 2077, The Last of Us II, e um jogo que ainda não tem data de lançamento: Elden Ring.

Aquiles: Os meus jogos favoritos de todos os tempos são The Isle, Dark Souls 3 e FFVIII. Em termos de jogos que vão sair este ano, o remake do Resident Evil 3 não pode chegar mais cedo.

Autor: Pedro Simões

Um apaixonado por videojogos e apreciador de anime. Por vezes, possuidor de opiniões pouco populares. @bakum4tsu

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