RPGs – Uma história interminável (Parte 1)

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Apesar da sua relativa juventude, a indústria dos videojogos é das mais variadas que existem em relação àquilo que a mesma tem para oferecer. Desde jogos mais focados em contar uma história, até jogos que se focam mais na acção propriamente dita, passando pelos diferentes géneros que este meio tem para oferecer, podemos verificar que existe alguma coisa para toda a gente. Independentemente de sermos jogadores veteranos ou jogadores mais casuais, todo e qualquer indivíduo pode encontrar pelo menos um jogo que lhe encha as medidas. Porém, há um género que, mesmo dentro desta variedade, se consegue destacar pela variedade que ele próprio consegue englobar. Estamos a falar do meu género preferido, RPGs. E sim, já percebi que repeti demasiadas vezes a palavra “variedade” durante este parágrafo, mas eu gosto imenso desta palavra, o que é que se pode fazer?

 

Dragon Quest1

 

RPG é a abreviatura de Role-Playing Game, e trata-se de um género de videojogos que, na sua essência, se caracteriza por um jogo em que desempenhamos um determinado papel. Para além disto, existem algumas características menos literais como um sistema de crescimento do ou dos personagens, uma história muito abrangente e muito mapa para explorar. Colocando o foco neste último ponto, uma das vertentes mais chamativas dos jogos que se encaixam neste género, são os vastos mundos que nos são dados a explorar, e que nos imbuem de uma sensação de que é possível encontrar de tudo e mais alguma coisa, como se fôssemos capitães do nosso próprio navio durante a época dos Descobrimentos.

Uma das minhas memórias mais presentes dos RPGs da era 16 e 32-bit, é precisamente a altura em que ganhava acesso a um barco (ou uma nave, em jogos com uma história mais futurista), e em que vários locais do mapa, até então inacessíveis, estavam finalmente ao meu alcance, abrindo todo um mundo de possibilidades na minha imaginação. “Será que aquela ilhota ali a sul do mapa tem um monstro especial”, “Será que naquele cantinho tapado pelas montanhas está uma arma incrível?”, “Será que deixei o forno ligado?”… ok, talvez a última não tenha nada a ver com RPGs, mas as duas primeiras inundavam a minha mente com uma vontade de partir à descoberta do que, até então, era apenas um ponto no mapa, transformando esse mesmo ponto numa miríade de realidades possíveis, cada uma mais empolgante do que a outra.

 

Dragon Quest Map

 

Deixem-me contar-vos uma história…

Outra peça fulcral nos jogos deste género é a história que cada um deles conta. Como é óbvio, é necessária uma narrativa que nos mantenha investidos numa experiência que terá uma duração de dezenas – e muitas vezes centenas – de horas. De facto, a história é um dos pilares de qualquer RPG digno desse nome e a quantidade de premissas e narrativas que podemos encontrar neste tipo de jogos é gigante. Sem querer entrar em muito detalhe, até porque era preciso um livro de proporções tolkianas para falar das narrativas dos RPGs que foram sendo lançadas ao longo do tempo, existem sobretudo duas trincheiras no que diz respeito a narrativas deste género que, não se excluindo mutuamente, possuem alguma disparidade entre elas. Estamos neste caso a falar na divisão (mais uma relembro que estamos a falar de enredos) entre RPGs ocidentais e RPGs orientais.

Se nos primeiros predominam as narrativas em cenários de fantasia clássica e com uma grande preocupação de ter um enredo minimamente credível e lógico, já os RPGs orientais são pautados por um conjunto de clichés clássicos e com uma grande liberdade criativa no que toca aos vários caminhos tomados ao longo das histórias. De notar que nenhum destes pontos deve ser tomado como pejorativo. São apenas características mais comuns a cada uma das facções. Serve isto para provar a tese de que as histórias existentes são imensas, mas também muito importantes neste tipo de jogo, sendo algo que qualquer fã do género mais aprecia. Exemplos desta variedade são jogos como Chrono Trigger, que tem por base viagens no tempo, Final Fantasy VII, com uma história mais focada na ficção científica, a série Dark Souls, que obriga os jogadores a descobrir o enredo por si próprios (ao mesmo tempo que os obriga a encontrar a sua sanidade mental depois de serem derrotados pelo mesmo boss pela 53ª vez seguida), ou a série Dragon Age, com uma história de fantasia medieval que não fica a dever nada a qualquer campanha de Dungeons and Dragons.

 

Chrono Trigger1

 

É que fica mesmo no ouvido!

Uma coisa que pode ser esperada de um RPG – em especial dos japoneses – são bandas sonoras épicas e que nos marcam muito depois de termos visto os créditos do jogo em questão. Em termos pessoais, ainda hoje oiço bandas sonoras como a de Chrono Trigger, Chrono Cross, da série Final Fantasy ou da série Persona. Nomes como Nobuo Uematsu ou Yasunori Mitsuda, são marcos incontornáveis da parte sonora da indústria dos videojogos e que compuseram verdadeiros hinos para muitos jogadores, sejam eles mais velhos ou mais novos. Muitas pessoas ouvem a banda sonora de forma religiosa, mesmo sem ter jogado o jogo ao qual as músicas pertencem. Isso é a prova da qualidade das bandas sonoras compostas para este tipo de jogos.

 

Caneta, Papel e Alguma Imaginação

A rica história deste género de jogos remonta aos velhinhos, mas ainda com muito charme, RPGs de texto, que muitas vezes tentavam prestar homenagem a jogos de papel e caneta como é o caso de Dungeons and Dragons. Eram jogos muito rudimentares, como seria de esperar pela época em que foram desenvolvidos, mas que faziam os jogadores dar largas à imaginação por causa da capacidade de saciar a sede de uma experiência mais imersiva, em que pudessem viver e tomar decisões como se fossem uma personagem numa outra realidade, em que a magia e os monstros fantásticos estivessem presentes. Foi esse tipo de jogos que serviu de embrião para o que viriam a ser os RPGs no futuro. Deste tipo mais minimalista de jogos é exemplo Zork, que no início dos anos 80 invadiu os computadores de muitos fãs do acima mencionado Dungeons and Dragons, e que procuravam uma experiência semelhante. Infelizmente, o meu conhecimento sobre este tipo de jogos não é muito vasto, na medida em que a maior parte deles é mais velha do que eu.

 

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Foi então no final dos anos 80 que surgiram duas das séries mais icónicas deste género. Estamos a falar de Dragon Quest e Final Fantasy. Estas duas séries tiveram representaram uma inovação sem precedentes quando foram disponibilizadas ao público. Apesar de para os dias de hoje parecer a antiquada, a interface destes jogos era bem mais simples e user-friendly do que a demais concorrência. Apresentavam histórias bem mais intrincadas e as mecânicas de jogo também eram mais acessíveis aos jogadores. É lógico que isto faz sentido à luz do panorama vigente até então. De uma forma geral, até aos dias de hoje – e apesar de vários altos e baixos – estas duas séries pontificam como as mais consagradas entre os JRPGs e RPGs.

Dragon Quest sempre foi uma série cujos méritos ficaram mais restringidos ao território japonês, criando mesmo o mito de que o governo nipónico teria proibido a saída de jogos da série em dias de semana. Tudo isto devido às inúmeras faltas ao trabalho e à escola que estariam a acontecer resultantes do lançamento destes jogos, que obviamente não correspondia à realidade. Já a série Final Fantasy, teve um sucesso mais generalizado estendendo-se ao território norte-americano e europeu. A título pessoal, sou um grande fã da grande maioria dos títulos destes dois nomes.

As duas séries caraterizam-se por não ter uma continuidade entre os diferentes jogos e a qualidade entre eles é relativamente assimétrica. Para mim, Dragon Quest teve o seu ponto alto em Dragon Quest VIII, com o estúdio Level-5 a trazer sangue novo muito necessário para a modernização da saga. Já Final Fantasy conta com vários pontos altos, sendo a série que mais joguei, muito por força de ser aquela a que estive mais exposto na minha infância/adolescência. Jogos como Final Fantasy VI (aquela sequência da ópera… wow), Final Fantasy VII (com um tão esperado remake a ser lançado recentemente), Final Fantasy IX e Final Fantasy X, são alguns dos meus jogos preferidos de todos os tempos, com momentos icónicos na história dos videojogos.

 

Skies of Arcadia1

 

Anos 90 – A Era Dourada

Nos anos 90 pôde ser verificada uma grande quantidade de lançamentos de RPGs, uns icónicos e outros nem tanto. A quantidade era muita em comparação com os dias de hoje (mais sobre isto mais à frente), muito devido ao facto de serem jogos que não requerem meios técnicos muito sofisticados para funcionarem bem. Como foi dito anteriormente, é um género de jogos que para ser genial, apenas necessita de uma coisa que não tem preço, ou seja, criatividade. Criatividade para criar um bom enredo, criatividade para criar uma boa banda sonora e criatividade para fazer funcionar mecânicas muito simples. Devem ser destacados jogos como Chrono Trigger, Suikoden I e II, a série Shin Megami Tensei (série precursora da série Persona), ou a série Pokémon que, na opinião de muitos fãs, já dura há demasiado tempo.

Pessoalmente, Chrono Trigger é até ao dia de hoje um dos meus jogos preferidos, sendo o resultado de uma dream team que incluía várias pessoas com créditos firmados na série Dragon Quest e na série Final Fantasy. Tudo funciona neste jogo: uma banda sonora digna de qualquer orquestra, uma história de viagens no tempo em que as nossas acções no passado têm consequências no futuro e momentos que nos deixam de queixo caído. Por estas razões, Chrono Trigger é o pacote completo.

Mas pronto chega de falar do meu jogo preferido de todos os tempos. Um pouco de trivia para quebrar a monotonia, o que é que Chrono Trigger e Dragon Quest têm em comum? Vou dar um espaço de algumas palavras para poderem lembrar-se da resposta… ok, ambos têm personagens desenhadas pelo mítico Akira Toryiama, autor de Dragon Ball. O seu traço característico empresta a estes títulos mais uma característica distintiva do seu pedigree, distinguindo-os da concorrência.

 

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00´s – A Afirmação e o Declínio

A década seguinte foi sobretudo de confirmação para as séries anteriormente mencionadas, excepção feita à série Suikoden, que despareceu do mapa, na ausência de um termo melhor. Nesta década, verificou-se a afirmação da série Persona, com a 3ª e a 4ª entrada, suplantando a série Shin Megami Tensei, da qual era um spin-off. Também outros títulos desta década deixaram o seu legado como Grandia ou Skies of Arcadia, não conseguindo mesmo assim chegar perto do sucesso alcançado pelas outras séries de mais nomeada.

Foi no final desta década que se começou a assistir ao início do fim da era dourada dos RPGs. Parte desse declínio pode ser atribuído ao facto de que as consolas que começavam a aparecer eram mais poderosas e o apelo do gaming tornava-se mais massivo, atraindo um público mais casual e que não estava disposto a jogar algo que necessitava de um maior investimento temporal e pessoal para ser devidamente apreciado. Pesa também o facto de essa nova geração de consolas que aparecia, poder oferecer experiências de maior fidelidade visual e acessíveis ao público. O lançamento de RPGs ficou então restringido, na sua maioria, a lançamentos mais pequenos em consolas portáteis longe dos valores de produção associados a títulos AAA. A qualidade da maior parte desses títulos estava lá, mas os fãs mereciam títulos com mais pompa e circunstância.

 

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Agente Infiltrado noutros Géneros

Porém, não se pense que daí em diante não se assistiu ao lançamento de experiências icónicas dentro deste género. Experiências como a série The Witcher, Dragon Age, Dark Souls, Ni no Kuni ou Persona 5 (pessoalmente um dos meus preferidos), faziam valer a máxima de “poucos mas bons”. Mais do que RPGs propriamente ditos, começámos a reparar que a influência deste género se fazia sentir sobretudo no imiscuir de algumas das suas características fundamentais em jogos de outros géneros. É muito difícil pensar em jogos que não tenham um sistema de progressão regido pelo ganho de pontos de experiência e pelo ganho de níveis (com o consequente desbloqueio de diferentes habilidades), ou em jogos que hoje em dia não tenham uma atenção especial à sua narrativa ou à qualidade da sua banda sonora. Exemplo disso são a série God of War ou a série Assassins Creed, que nas suas mais recentes iterações incorporaram vários elementos de RPGs com grande efeito.

Outro aspecto digno de relevo é a quantidade de subgéneros dentro deste género. Disso são exemplo os Strategy Role-playing Games (Final Fantasy Tactics e Fire Emblem) ou os Action Role-playing Games (Dark Souls e Diablo), o que serve para mostrar a grande versatilidade deste género, e como a sua jogabilidade e principais características podem ser moldadas a fim de criar experiências completamente díspares umas das outras.

 

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Como um fã inveterado de RPGs, pensei muitas vezes que o género estava a morrer e que o seu futuro seria muito negro, dada a parca quantidade de jogos deste tipo que eram lançados na actualidade. No entanto, e como já foi dito anteriormente, a quantidade mais baixa é um contraponto à grande qualidade dos mesmos. Para além disso, as notórias influências presentes nos jogos de outros géneros é algo que deve ser encarado como um sinal positivo e como uma garantia que, de uma forma ou de outra, o RPG é um género que está de boa saúde por muitos e bons anos, evoluindo e tornando assim a sua história, interminável e impossível de resumir a algumas linhas. É por isso que este resumo não fica por aqui e devem estar atentos a capítulos futuros deste artigo.

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