A razão pela qual não quero terminar Xenoblade Chronicles

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Quando a Definitive Edition de Xenoblade Chronicles foi anunciada para a Nintendo Switch em setembro de 2019 – com data de lançamento para 29 de maio deste ano – como não podia deixar de ser, a notícia foi recebida com entusiasmo por parte dos fãs da série.

Desde o lançamento do primeiro título para a Wii em 2010, até ao mais recente para a Nintendo Switch em 2017, já muito foi dito e escrito sobre a série produzida pela Monolith Soft. Contando com a versão para a N3DS e WiiU, pode-se afirmar que Xenoblade Chronicles marca presença em todos os sistemas principais da Nintendo e há uma boa razão para tal acontecer.

Para mim, Xenoblade Chronicles é, e sempre será, um dos meus jogos favoritos. Já investi centenas de horas ao longo de vários playthroughs e, apesar disso, nunca o joguei uma única vez do início ao fim! Parece absurdo? Talvez, mas existe uma boa razão para assim o ser…

Ao contrário de mais uma análise ou especulação, este meu artigo pode ser considerado uma carta de amor à obra de arte que é Xenoblade Chronicles.

 

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“Tudo está bem quando acaba bem”

Quem nunca abandonou uma sala de cinema no fim de um bom filme e deu por si estranhamente alienado de volta ao mundo real? Para o pôr em bom Português, saudoso; como se o mundo ou eventos com que a longa metragem nos presenteou fossem uma experiência bem mais real – se bem que vicária – e o nosso subconsciente oferecesse resistência em regressar ao mundano e prosaico do quotidiano.

Quem nunca terminou um filme ou série e foi imediatamente pesquisar na internet se está prevista, ou pelo menos planeada, uma sequela ou nova temporada? Ou, como quando finalmente terminamos a última página de um bom livro e nos detemos em contemplação; talvez a processar aquela viagem em que o livro nos conduziu; talvez a imaginar o que poderia ter sido feito de forma diferente, ou ainda qual a continuidade que poderia ser dada à história. Em todo o caso, inundados da melancolia que advém da realização que a viagem chegou ao fim.

Ficamos com a memória daquela experiência fascinante e daquele mundo extraordinário, sem esquecer os soberbos personagens que nele habitavam. Tudo isto com um enorme desejo de partilhar essa viagem com o mundo, ou mais concretamente com amigos e família.

Correndo o risco de cair no romantismo, é precisamente isso que Xenoblade Chronicles é para mim. Um conto tão maravilhosamente relatado e imersivo, que não posso deixar de propositadamente prolongar a experiência que o é viver ao máximo, ao nunca dar por terminada a viagem.

 

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Xeno” Exprime a noção de estranho

Com certeza muitos críticos levariam as mãos à cabeça com aquilo que se segue – e eu entre eles, não estivesse, num exercício de retórica, a propositadamente simplificar o seguinte: uma história é uma boa história se nós gostarmos dela. Claro que muito se esconde nas entrelinhas mas, para gostarmos de uma história, em primeira instância temos de ser capazes de nos inserirmos nela. Para isso, tem de haver uma familiaridade com os elementos da mesma.

Por mais extravagante que o contexto da história seja, contenha ela magia ou robôs, anjos ou demónios, paranormal ou extraterrestre, a componente humana subsiste no centro da narrativa quer nos apercebamos conscientemente disso ou não. Partindo do princípio que a ficção que nos é apresentada é consistente, todos possuímos a capacidade de voluntariamente desligarmos a parte crítica da mente e aceitar aquilo que nos é apresentado como sendo plausível.

Uma boa história é capaz de nos levar numa viagem ao lado dos seus protagonistas. Num golpe de ironia, quiçá nem sempre propositada, talvez seja por isso que a ferramenta clássica dos RPGs, resida precisamente no facto de se focarem numa viagem ou demanda. Numa quest – ou série delas! Passamos pelas suas angústias e determinações, dores e alegrias, contratempos e vitórias. No final, quando finalmente pousamos o comando, sentimos que toda aquela experiência nos transformou um pouco e à visão do mundo em que vivemos.

Xenoblade Chronicles consegue tudo isso e mais, executando-o de forma absolutamente soberba!

Em traços muito gerais, Xenoblade apresenta-nos o ridículo de um universo que consiste num oceano sem fim aparente, no qual as carcaças de dois colossos perfazem a restante geografia. À primeira vista, o conceito apresenta partes iguais de absurdo e deslumbrante, mas os habitantes deste mundo alienígena são tão mundanos que o absurdo desaparece da equação. Habitar o tornozelo ou as costas de um proverbial deus morto, deixa de ser um entrave à nossa mente racional quando somos confrontados com habitantes cuja preocupação é por pão na mesa, manter o negócio de família à tona, resolver um conflito entre irmãos, ou decidir o que fazer da sua vida. Resolver esses dilemas, ajuda-nos a aceitar a realidade que rodeia os personagens e faz ter de lutar contra criaturas mecanizadas ou insetos gigantes entre as colinas de neve do ombro de um colosso apenas mais uma segunda-feira.

 

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…resta-nos o deslumbramento

Durante a constante exploração do mundo de Xenoblade, é impossível não parar para apreciar toda uma panorâmica do belíssimo cenário que nos envolve.

Xenoblade Chronicles não está na vanguarda gráfica e, apesar de os gráficos estarem longe de deploráveis, também não o estavam na altura em que o jogo foi lançado. Não, os gráficos de Xenoblade Chronicles não são o ponto forte, mas então e o grafismo? O grafismo é inacreditável! Apesar dos poucos polígonos num modelo ou da medíocre resolução de algumas texturas, não se pode ficar indiferente e evitar esbugalhar os olhos perante tais cenários.

Em Gaur, temos uma vasta planície idílica na coxa de um gigante, repleta de vida vegetal e animal, com montanhas estranhamente arqueadas que se esticavam até ao firmamento, quedas de água que se precipitavam para o desconhecido, e aquela visão singular de um colosso mecanizado no horizonte.

Em Satorl Marsh, éter é libertado como que um manto iridescente da vegetação e os ramos de árvores que durante o dia estavam nus adquirem uma folhagem etérea e resplandescente. Ou, ainda, como quando estamos numa floresta tropical nas costas do titã, olhamos para cima, e finalmente nos apercebemos de que aquele céu de um azul vítreo não é mais senão um oceano inteiro que, desafiando a gravidade, flutua entre as asas desse gigante a que chamamos lar.

Mas não é apenas a grandiosidade e complexidade criativa dos ecossistemas que são fascinantes. A banda sonora faz muito mais do que servir de ruído de fundo à nossa exploração. A trilha é orgânica e não se limita a complementar a área em que se insere, mas muda do dia para a noite tal como o cenário que lhe diz respeito. Além disso, a sua orquestralidade é magistral. Por inúmeras vezes dei por mim a deixar o jogo no ecrã inicial (enquanto me ocupava com outras tarefas), apenas para deixar o tema principal tocar em loop, ocasionalmente roubando um olhar para o ecrã do título figurando a Monado – a afamada Xenoblade – solitariamente cravada num prado verdejante, pontilhado com destroços metálicos.

Se este quadro não é suficiente para atestar a beleza audiovisual inerente em tudo que constitui Xenoblade Chronicles, então é porque fiz um pobre trabalho em pintá-lo.

 

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Novos Velhos Horizontes

Se bons visuais e banda sonora servem para nos imergir no mundo insólito que nos é apresentado, e não apenas o tornam envolvente como funcional, a narração por si só não lhes fica atrás. Quer pelos personagens – principais, secundários, ou mesmo figurantes – perfeitamente e não excessivamente caracterizados, quer pelo desenrolar dos acontecimentos que constantemente nos faz querer adivinhar o que irá acontecer a seguir sem consequentemente nunca falhar em subverter essas expectativas.

Sendo um ávido consumidor não apenas de RPGs mas também de livros, filmes, séries de fantasia e ficção cientifica, sou da humilde opinião que poucas obras nos conseguem inundar os sentidos e a razão como Xenoblade Chronicles consegue.

Sim, chegar a casa depois de um longo dia e relaxar atrás de um comando com um grupo de amigos do outro lado do headset enquanto se desarma bombas, dá-se headshots, ou destroem-se bases inimigas, é relaxante e até terapêutico. Mas, também o é sentar no sofá e visitar pela enésima vez as amplas ruas da metropolis de Alcamoth e dar dois dedos de conversa com os seus habitantes, ou nadar durante minutos sem fim e sem nunca nos cansarmos perto das quedas de água de Makna.

Claro que um jogo de extensa exploração como Xenoblade onde, infelizmente não temos outra forma de transporte que não os nossos pés, o chamado fast traveling está incluído. Encontramos landmarks e, posteriormente, podemos lá voltar com uma rápida sequência de botões e menus. No entanto, perdi a conta ao número de vezes em que me abstive de usar essa função, de forma a poder revisitar aqueles cenários vezes sem conta.

O sistema de batalha é interessante e, apesar da equipa ser consideravelmente personalizável, é bastante limitado na medida em que apenas podemos ter três personagens de uma vez – e eu bem sei que gostaria de os trazer a todos comigo – e depois só nos é possível controlar diretamente um, deixando os restantes à mercê de uma inteligência artificial longe de ser eficiente. Não obstante, os combates em si são energéticos, em tempo real, com ampla integração de táticas e a obrigar a um pensamento e dedos rápidos por parte do jogador. Apesar disso, e como não podia deixar de ser, acaba por tornar-se repetitivo; se bem que a quase mecanizada forma com que ao fim de algum tempo premimos a sequência de botões, acaba por proporcionar outra forma de relaxamento.

 

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Se à terceira não é de vez, quando será?

É possível encarar Xenoblade como um jogo que deve ser derrotado, vencido, concluído e posto de lado como todos os outros. Mas para mim, é um jogo a ser apreciado. Mais que isso, a ser vivido!

Não quero dar a entender que nunca pouso ou arrumo o cartucho na estante ao lado dos restantes. Claro que passo meses a fio sem jogar Xenoblade, mas eis que lá vem aquele momento que me dá vontade de ligar a velhinha Wii, ou em que dou por mim a pôr de lado a Switch e pegar na N3DS para o jogar! E pronto, não me lembrando em que ponto estava no jogo, acabo por começar pela trilionésima vez e reviver todos aqueles plot twists e revelações, mas sem nunca perder o entusiasmo inicial! E dou por mim a pensar se será desta que vou alcançar um novo patamar e assistir ao desenrolar de um evento pela primeira vez.

A versão da Switch irá trazer mais eye candy. Melhores gráficos, melhores menus – que os originais têm alguns keybinds que deixam um pouco a desejar – uma banda sonora melhorada e expandida, e um novo arco da história: um epílogo, Future Connected, que pode ser jogado sem ser necessário completar o jogo principal.

Para quem nunca jogou Xenoblade Chronicles e possui uma Nintendo Switch, este será o momento ideal para o fazer e juntar-se ao clube. Mas certamente que a versão da Switch também terá algo a oferecer àqueles que já jogaram uma das versões anteriores, mesmo não sendo tão aficionados na série como eu.

É-me difícil por um capítulo final na beleza que é Xenoblade Chronicles e apesar de já ter o jogo para Wii e para N3DS, conto os dias em que poderei ter a Definitive Edition na Switch.

Quem sabe, poderá ser desta que eu o jogue de uma ponta à outra e me despeça de Xenoblade Chronicles de vez.

Ou não…

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