Fury Unleashed – Análise

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O Síndrome de Estocolmo é uma condição que pressupõe que a entidade que é mantida em cativeiro, desenvolva sentimentos de afecto e empatia pelo seu raptor. Com efeito, essa condição pode ser associada a vários videojogos que nos fazem sofrer, mas dos quais não conseguimos deixar de gostar e de alinhar no que nos propõem. Certamente, vários jogadores já foram feitos reféns de jogos como Dark Souls ou Nioh e, apesar de terem sofrido muito nas suas mãos, adoraram cada minuto da experiência, saindo dela a gritar os seus méritos aos sete ventos. É então neste filão que nos surge Fury Unleashed, um jogo do género rogue-like, que nos coloca na pele de um herói de banda desenhada, de seu nome Fury.

 

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Neste jogo, controlamos Fury na sua travessia pelos vários mundos e enredos criados pelo autor desta banda desenhada. Se esta premissa vos parece demasiado derivativa, e até um pouco genérica, desenganem-se, pois, neste jogo somos convidados a navegar a psique do autor através dos vários mundos em que este decidiu inserir Fury. Eu sei que pode parecer confuso, mas este assunto será desenvolvido com mais detalhe um pouco mais à frente.

Tentando definir este jogo com uma comparação um pouco grosseira, imaginem o resultado que seria obtido se alguém resolvesse fazer um rogue-like a partir do clássico de Sega Mega Drive Comix Zone, e, se juntarem armas de fogo e sangue à descrição, ficam com uma ideia muito aproximada do que Fury Unleashed tem para oferecer. Esta alquimia funciona de forma quase mágica, e deixa o jogador com a vontade irresistível, de tentar ir avançando só mais um pouco, dando-nos o alento suficiente para carregar no botão que diz Play Again só mais uma vez.

 

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Narrativa bolo de bolacha

Como já foi mencionado anteriormente, em Fury Unleashed controlamos os destinos de Fury, uma personagem de banda desenhada, que tenta abrir caminho por entre hordas de inimigos ao longo de três edições da banda desenhada que protagoniza. Porém, esta história tem outra camada e, ao mesmo tempo que seguimos o trajecto de Fury, é-nos dado a conhecer o estado mental em que se encontra o autor que desenha as suas aventuras. Estas duas vertentes são equilibradas de uma forma magistral no desenrolar do jogo, sendo a sua narrativa composta por várias camadas. Por um lado, vamos andando de painel em painel e de vinheta em vinheta, a disparar várias armas na banda desenhada propriamente dita. Por outro lado, são-nos dadas várias pistas sobre o que se passa na cabeça do autor de Fury Unleashed, tanto ao nível do seu processo criativo, como das várias agruras subjacentes ao mesmo.

Seria irresponsável da minha parte entrar em mais pormenores da história do jogo e estragar esta parte do mesmo para os leitores desta análise. Ainda assim, deixem-me dizer que este foi um dos pontos que mais me surpreendeu enquanto joguei Fury Unleashed. Neste jogo que é sobretudo acerca da chacina de uma vasta parafernália de seres estranhos e que não querem o nosso bem, conseguimos encontrar uma perspectiva muito humana daquilo que é o processo criativo, e da dificuldade que está implícita quando sentimos que devemos abrir mão de algo que significa tanto para nós. Dito isto, esta narrativa tem a capacidade de nos fazer sentir heróis de um filme de acção, ao mesmo tempo que nos faz emocionar e puxar aquela lagrimita que já não vinha à superfície do olho desde o Bambi.

 

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Com bomba e circunstância

Debruçando-me mais sobre a jogabilidade de Fury Unleashed, devo dizer que se trata de um típico rogue-like, ou seja, o nosso personagem morre inúmeras vezes, ao mesmo tempo que o jogador também morre um pouco por dentro de cada vez que isso acontece. Posto isto, resta apenas tentar gritar o menor número de impropérios possível e aprender um pouco com os erros cometidos, para que da próxima vez corra um pouquinho melhor. A acção é fluída e as mecânicas de Run-and-Gun estão muito bem implementadas, sendo apenas necessária alguma habituação aos controlos do jogo durante os momentos iniciais. Fury Unleashed não é um jogo nada fácil, embora presenteie o jogador com um vasto arsenal de armas, armaduras e power-ups que o ajudam a completar os níveis. Em relação às armas que o jogo nos dá, é importante dizer que a variedade é grande e a diferença entre elas também é bastante notória.

 

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Um dos grandes méritos de Fury Unleashed é a maneira como o jogo usa a mecânica de combos. Este jogo premei-a a fluidez da acção, na medida em que nos dá vários benefícios em manter uma cadeia cada vez mais longa de mortes, sem sofrer dano. Quanto maior o número de mortes que conseguimos encadear, teremos vários benefícios como escudos ou, o mais importante de tudo, esferas que regeneram a saúde do nosso personagem. Estas esferas revelam-se fundamentais visto o HP do nosso personagem ser muito reduzido inicialmente, chegando ao zero de forma extremamente rápida, forçando-nos a começar os níveis novamente. E desenganem-se se pensam que podem memorizar os mapas, pois estes são gerados aleatoriamente e irão ser sempre diferentes daquele que jogámos antes.

Para facilitar um pouco a vida do jogador, existe ainda outro tipo de esferas. As esferas de tinta são deixadas cair pelos nossos adversários aquando da sua derrota. Funcionam como pontos de experiência que podemos gastar para melhorar certas características do nosso herói, onde a morte é mesmo uma oportunidade de melhorar e de atacarmos os desafios de forma diferente. Desta forma, Fury Unleashed premei-a um tipo de acção mais frenético, em detrimento de estratégias mais conservadoras, como se fôssemos um tubarão que não pode deixar de nadar, pois se parar morre.

 

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Ver o mundo aos quadradinhos

A apresentação deste jogo é muito bem trabalhada, sendo o ecrã pintado de cores muito vivas e que ajudam a fazer passar a mensagem do jogo. Em termos visuais, Fury Unleashed consegue fazer o jogador sentir-se numa autêntica banda desenhada em movimento, com várias onomatopeias a povoarem os cenários, e em que todas as cores e as explosões criam um autêntico fogo de artifício que acompanham toda a energia e a vivacidade do jogo. Os cenários em que o jogo se passa são variados e muito distintos, conseguindo assim manter o jogo fresco no decorrer da aventura. Também os diferentes seres que vamos tendo de abater são visualmente variados e isso impede que se instale o aborrecimento próprio de estarmos a disparar sobre a mesma criatura pela milionésima vez. Deve ainda ser feita menção ao facto de as armaduras com que equipamos Fury, não se traduzirem só em termos do número que corresponde à nossa defesa, como também se traduzem em termos visuais, ou seja, se apanhamos um chapéu de mafioso, ficamos com um Fury que parece que tem umas contas a ajustar com alguém.

 

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O Som da Fúria

Outra componente digna de louvor em Fury Unleashed é a sonora. Os efeitos sonoros são coerentes com a acção vista no ecrã, e os sons dos disparos, ou do esborrachar dos nossos oponentes, são nada menos do que satisfatórios. A banda sonora também está muito bem conseguida e a sua presença nunca é um fardo nos ouvidos do jogador, adaptando-se e ajudando a pintar os vários cenários pretendidos, sempre com uma sonoridade que oscila entre o Rock e o Heavy Metal. Um pormenor que deve ser mencionado, por ser tão delicioso, é o facto de a intensidade da banda sonora ir aumentando conforme o tamanho do combo que estamos a conseguir fazer. Isto faz com que a tensão se torne palpável quando nos estamos a tentar desviar dos projéteis dos inimigos a todo o gás, para que a cadeia não seja quebrada. Este detalhe pode parecer insignificante, mas quanto mais tempo passamos com este jogo, mais nos apercebemos do quão bem pensado e implementado foi.

 

 

Fury Unleashed é um jogo com poucos defeitos e que acerta em quase todos os alvos a que se propõe. A dificuldade por vezes injusta (especialmente na parte inicial), pode ser o suficiente para alguns jogadores menos pacientes abandonarem prematuramente esta experiência, especialmente se não conseguirem lidar com o breve período de habituação aos controlos. Apesar destes pequenos detalhes, Fury Unleashed é uma excelente proposta por parte da Awesome Game Studios e que deixa transparecer a enorme paixão que a equipa colocou na sua execução, estando de parabéns por serem os padrinhos de casamento de um conceito de acção frenética, com uma narrativa com várias camadas. Em jeito de conclusão resta dizer que foi um prazer ser refém de Fury Unleashed e, em jeito de brincadeira, digo também que senti o significado de Síndrome de Estocolmo na primeira pessoa.

 

positivo Apresentação visual diferenciada
positivo Jogabilidade frenética
positivo Narrativa com várias camadas
positivo Co-op Local

errado Dificuldade por vezes injusta
errado Período de habituação aos controlos

Data de Lançamento: 8 de Maio de 2020
Produtora: Awesome Games Studio
Editora: Awesome Games Studio
Género: Ação, Aventura, Plataformas
Disponível para: Playstation 4, Xbox One, Windows, Nintendo Switch

Foi disponibilizada uma cópia para análise por parte de Awesome Games Studio.

 

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