The Coma 2: Vicious Sisters – Análise

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Super Lua de Sangue

Muitos dos estudantes do liceu Sehwa, em Seul – Coreia do Sul, estão empolgados com a ocorrência de um eclipse lunar nessa noite, visto o último ter ocorrido em 1954. Como eles descrevem, é noite de super lua de sangue; alcunha, rodeada em folclore supersticioso, atribuída ao nosso satélite natural devido à sua aparência durante o fenómeno.

Mina Park está prestes a terminar mais um dia banal na sua vida de estudante em Sehwa, cujos dilemas e emoções se reduzem aos resultados dos testes ou às cartas de paixonetas não correspondidas. Não lhe passa pela cabeça que será inadvertidamente transportada para um universo paralelo, conhecido apenas como o Coma, sombrio e letal, de onde surgem as coisas sinistras que muitas vezes assaltam os pesadelos e inundam os mitos do paranormal! Um local onde ela irá descobrir o quão frágil é a linha que separa mito de realidade, pois essa barreira encontra-se particularmente debilitada numa noite de lua de sangue…

The Coma 2 : Vicious Sisters é um survival horror, centrado num clássico plataforma 2D com elementos metroidvania à mistura, e apresentado sob a forma de manhwa – o primo sul coreano, talvez menos conhecido aqui no ocidente, do manga japonês.

Tal como o nome indica, esta é a segunda entrada na série. Porém, este título pode ser perfeitamente apreciado sem se ter jogado o anterior. Isto porque a história é bem contida e o intricado universo expandido à medida que somos convidados a desvendar o Coma, e as suas peculiaridades de forma vicariante através da sua protagonista, a jovem Mina Park, que também o está a explorar pela primeira vez.

 

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Arte e diálogos de elevada qualidade contribuem para criar uma história cativante, cuja jogabilidade não lhe fica atrás.

 

Terror psicológico de excelência

Para verdadeiramente se apreciar The Coma 2, temos de nos deixar conduzir pela sua narrativa, uma vez que esta é sem dúvida o ponto fulcral do jogo. Mina Park é transportada até um reflexo Lovecraftiano do mundo real, repleto de elementos de uma perturbadora símile kafkiana; tais como estranhos crescimentos vegetais tentaculares; atemorizadas figuras humanoides em cera, imobilizadas em posturas grotescas; vestígios espectrais de pessoas ou emoções; rastos de sangue, ruína, e desolação; e, acima de tudo, alguns habitantes desta realidade que insistem em a perseguir, raramente deixando espaço para a infeliz Mina recuperar o seu fôlego – e consequentemente, o jogador.

Aqueles que gostam de ler e analisar as várias pistas, insinuações e relatos deixados por todo o lado, irão certamente deixar-se absorver pelo desenrolar da história e do Coma. Os momentos de exploração, diálogos e narração, estão perfeitamente justapostos e equilibrados, mantendo um ritmo brilhantemente consolidado. Tal, é de facto já tradição no género de horror Coreano (de exemplo temos filmes como O Lamento, ou História de Duas Irmãs), em que o pavor, e até a adrenalina, não são instigados por golpes baixos como aqueles súbitos gritos estrondosos que cortam o silêncio – os infames jump scares – a que o horror de Hollywood nos (mal) habituou, mas sim com a construção e apresentação da narrativa.

 

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Um sorriso de morte!

 

Para além dos contratempos mais mundanos – exempli gratia, corpos que caem do teto ou espíritos que nos tentam agarrar os tornozelos – que lentamente desgastam a vitalidade da protagonista, esta é continuamente atormentada por entidades que a perseguem e que podem surgir a qualquer momento, muitas vezes quando menos se espera, por não estarem confinadas a padrões ou locais óbvios. Em resposta, só resta fugir (enquanto o fôlego assim o permite) até manter uma distância segura; entrar por uma sala e esconder dentro do armário ou debaixo da mesa mais próxima, enquanto se aguarda que a predadora desista e siga viagem. Se formos descobertos ou capturados, a morte de Mina é certa e imediata.

Obviamente, o tema já foi explorado até à exaustão em vários media e, como prova disso, basta salientar que por esta altura, certamente o leitor já se terá recordado de títulos como os da série Silent Hill ou Amnesia. Porém, isso não diminui em nada a ambiência que The Coma 2 consegue criar, apesar da sua simplicidade gráfica bidimensional. Na verdade, fá-lo de forma bem diferente dos supracitados, precisamente até devido a esse seu estilo peculiar.

 

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O mórbido luar sangrento a contribuir para a atmosfera de cortar à faca.

 

Imagens de mil palavras

Atualmente, no que toca aos videojogos, quando se pensa em gráficos, muitas vezes vêm à cabeça palavras como polígonos, texturas, modelos, etc. No entanto, há já algum tempo que esta tendência tem vindo a ser revertida graças a muitos outros títulos indie, e à sua intrincada arte em pixeis que procuram recriar os nostálgicos jogos a 8 e 16 bits. The Coma 2, não pertence a nenhum destes extremos. Em vez disso, irreverentemente situa-se no centro, com o seu atrativo grafismo de banda desenhada.

É certo que existem algumas inconsistências na arte visual de certas personagens, primariamente da própria protagonista cujos traços faciais diferem consideravelmente entre a sua representação nos menus, nas sequências de animação, e na figura usada durante o jogo normal. Não obstante, o estilo é bem detalhado e explícito, não apresentando falhas em qualidade quando se joga com a Switch ligada à televisão. A iluminação é bem trabalhada e os movimentos dos personagens, apesar de serem animados por apenas meia dúzia de imagens de tal forma que é perfeitamente evidente o momento em que as ilustrações transitam, são fluídas o suficiente e até agradáveis ao bom estilo da animação quadro-a-quadro – ou no inglês mais popular, stop motion.

Todo o jogo é assim reminiscente de uma banda desenhada, principalmente quando somos convidados a ver uma sequência narrativa, que é geralmente apresentada até vinheta a vinheta.

 

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O apitar errático do eletrocardiograma levantava suspeitas…

 

Para fechar com chave de ouro a tríade visual e narrativa temos, como não podia deixar de ser, a trilha sonora. A música quase sempre se restringe às características pontadas rítmicas de acordes sinistros para elevar os momentos de especial tenção, mas está tão bem incorporada com os restantes efeitos sonoros, e a ação propriamente dita, que cumpre admiravelmente a função de intensificar esses mesmos momentos de forma subtil, em vez de os suplantar.

São os efeitos sonoros que de facto brilham e dão ainda mais vida ao ambiente. Passos que ecoam nos corredores ou nas ruas, o gotejar pelas paredes, a estática eletrizante, ruídos de coisas a rastejar, suspiros do vento sibilante, e muito mais. Tudo isto, não apenas distribuído de forma ubíqua por uma área, mas cautelosamente plantado em locais específicos de onde seria espectável ouvir tais sons. De salientar o brilhantismo com que ouvimos o quase fluxo e refluxo do ecoar dos tacões das antagonistas, que servem de indicação à sua localização geral e proximidade.

Escassos, mas presentes, são os diálogos dobrados em Coreano que, apesar de possuírem boa qualidade, são quase inaudíveis. The Coma 2 : Vicious Sisters, não necessita de gráficos de ponta para produzir uma crónica de horror psicológico totalmente imersiva; quando já o faz com a sua história e audiovisuais.

 

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Mil palavras e mil e uma formas de morrer no Coma.

 

Sobreviver a um Coma, ganhou todo um outro sentido

Os controlos são responsivos, confortáveis e intuitivos. Vários pormenores estão trabalhados de forma a amenizar a experiência, como o facto de depois de se ler um diálogo, ou visualizar uma sequência de animação pela primeira vez, ser possível rapidamente avançar as mesmas.  Sem dúvida, características que advém do facto deste jogo se enquadrar num género já bem estabelecido e simples em termos de jogabilidade.

Os fãs do género estarão certamente familiarizados com as mecânicas básicas. Existência de locais próprios para gravar o progresso; relativa escassez de itens curativos; minijogos que envolvem premir sequências de botões de forma célere; enigmas e puzzles que travam o progresso mas não ao ponto de deixar o jogador perplexo e frustrado; itens permanentes que dão acesso a novas mecânicas e áreas; e, a necessidade de estarmos em perpétua vigília face às criaturas que nos perseguem e impelem em busca de abrigo.

Da panóplia de itens disponíveis, diferentes consumíveis produzem diferentes efeitos, muito para além do simples recuperar de barras de vitalidade. Alguns são utilizados para contrariar um perigo singular, o que acrescenta à necessidade de haver um bom planeamento prévio. Outros são até ambivalentes, como por exemplo um isqueiro que, como fonte de iluminação muitas vezes necessária, serve também de chamariz à nossa localização.

 

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Quem quer que seja o espírito no Coma que trata da manutenção destas máquinas, a Mina agradece!

 

É de todo possível jogar a correr de um lado para o outro. Possível, mas dispendioso em termos de consumíveis e até mesmo tempo. Em The Coma 2, a razão porque “quanto mais depressa, mais devagar”, deve-se ao facto de a falta de prudência tornar corriqueiro o ser presenteado com uma pitoresca imagem, expositiva do infeliz destino da protagonista, em que sumariamente figuram a vermelho as palavras “A Mina Morreu”.

A jogabilidade promove então iguais partes de premeditação e preparação, nomeadamente, testar fechaduras a ver quais estão trancadas e verificar quais salas ou corredores dispõem de locais de refúgio, de forma a manter sempre presente a rota de fuga ideal. Racionar os conteúdos da nossa mochila também é crucial, bem como recordar a localização mais próxima de certo item de que agora desesperadamente necessitamos – mas que na altura não tínhamos espaço para o recolher.

Claro que podemos sempre abrir o mapa e discernir a localização da máquina de venda automática mais próxima, desde que ainda reste trocado para comprar uma barra de chocolate ou caixa de fósforos espectrais.

 

 

Uma depravação viciosa

Jogabilidade e narrativa perfazem dois elementos em perfeita harmonia, que fazem de The Coma 2 : Vicious Sisters uma experiência empolgante e envolvente.

No entanto, se retirarmos a história do jogo, este pode ser reduzido a mover de um lado para o outro colecionando itens e ganhando acesso a novas áreas, enquanto se procura evitar os vários inimigos e perigos espalhados pelo caminho, numa plataforma totalmente horizontal onde a protagonista nem sequer é capaz de saltar.

Tal só seria possível fazer com enorme preconceito, uma vez que toda a ação – e existe ação quanto baste – gira em torno de uma narrativa robusta, verosímil neste aterrador mundo estranho, em que todos os pormenores, por mais absurdos que de início possam parecer, estão perfeitamente caracterizados e descritos nas peculiaridades deste mundo sobrenatural que é o Coma.

O quão assustador o jogo chega a ser irá, obviamente, depender muito de pessoa para pessoa, mas mesmo jogadores de nervos mais frágeis poderão apreciar o título, uma vez que consegue ser bastante permissivo em termos de dificuldade. Quanto a veteranos do género, certamente que não se irão assustar muito, mas conseguirão, sem dúvida, tirar prazer da jornada terrorífica que The Coma 2 proporciona.

Em suma, apesar de ser capaz de agradar pontualmente a um amante de jogos de aventura ou horror, The Coma 2 : Vicious Sister irá certamente cativar a quem se deixar levar pela sua história e o seu aprazível grafismo peculiar.

 

positivo Jornada audiovisual apelativa
positivo História e narração envolventes
positivo Terror psicológico bem conseguido

errado Longevidade reduzida

Data de Lançamento: 19 de Junho de 2020
Produtora: Devespresso Games
Editora: Headup Games
Género: Ação, Aventura, Survival Horror
Disponível para: Windows PC, Playstation 4, Nintendo Switch e Xbox One

Foi disponibilizado um código para análise (Nintendo Switch) por parte Brown Betty.

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