Sense: A Cyberpunk Ghost Story – Análise

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Sense – 不祥的预感: A Cyberpunk Ghost Story, é um jogo de terror indie tendo como pano de fundo uma distopia futurista. O próprio título do jogo, com todos os seus 30 caracteres (excluindo espaços e caracteres especiais), dá informação de sobra sobre o produto final. Na realidade, aponta-nos até para o calcanhar de Aquiles de Sense: não propositadamente, o título é uma caricatura do género e de si mesmo.

O nome principal, de todo bem conseguido, remonta-nos para algo enigmático e – constatando o óbvio – estimulante aos sentidos. Algo que o jogo é, sem dúvida, embora nem sempre da melhor forma.

Uma simples pesquiza num tradutor diz-nos que os caracteres seguintes se traduzem para “premonição sinistra”. Certo, agora sabemos tratar-se de um jogo de terror ou suspense, com uma forte temática oriental.

Por fim, as suspeitas são confirmadas, ao sabermos tratar-se de um terror circunscrito a um conto fantasmagórico. Mas não um tipo de fantasmas qualquer! São fantasmas cibernéticos!

Em suma, o próprio título faz um trabalho decente a descrever o jogo. Para quem souber ler nas entrelinhas, a descrição é plena.

 

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Vistas cyberpunk como esta são raras, já que a grande parte do jogo passa-se num antigo edifício assombrado.

 

Terror Formulaico

Os autores do Sense, afirmam ter-se inspirado nas séries Clock Tower e Fatal Frame. Apesar disso, as semelhanças existentes são na temática e concretização do género através da atmosfera e narração. Em termos de jogabilidade, este título é mais adequadamente comparável a Creeping Terror ou Twilight Syndrome.

Ainda outro título muito semelhante em termos de jogabilidade, e que há não muito tempo atrás, tive o prazer de analisar, foi The Coma 2: Vicious Sisters. Um jogo em que uma jovem colegial se vê subitamente confinada a uma realidade alternativa – à la Silent Hill – da qual, para escapar, terá de usar todo o seu engenho e perseverança.

Ambos os títulos partilham a temática. Desde a ambiência como forma de gerar tensão, à inaptidão da personagem principal em lidar diretamente com os espíritos que a perseguem ou, até mesmo, na forma repentina com que ambas se veem projetadas para o mundo sobrenatural.

Mas, ao passo que The Coma incide mais em fugir de quem nos persegue, em Sense temos um jogo mais virado para a resolução dos puzzles que permitem avançar na história.

Neste jogo, a salvação da protagonista, Mei-Lin Mak, está dependente da interação com o cenário, recolha de pistas, resolução de enigmas e decifração de códigos, enquanto procura evitar espectros cibernéticos que a perseguem.

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A ilusão de profundidade está geralmente bem conseguida e é um dos vários aspetos que fazem dos cenários esmerados.

 

Consolidar duas frentes aparentemente divergentes, tais como o folclore paranormal e a ficção científica, é de facto algo bastante interessante e, quando bem concretizado, pode muito bem ser brilhante. Infelizmente, Sense fica aquém de brilhantismo.

A ambiência é de facto excelente. Todos os pequenos detalhes que criam uma atmosfera tensa estão presentes. Desde os ruídos de algo a mover nas sombras justapostos ao silêncio mortal nos corredores; objetos que se movem sem razão para tal; cenas que parecem terem sido tiradas de um Ju-On com olhos nas paredes e cabelos à mistura; ou ainda a vertente futurista em que espíritos tumultuosos extravasam para o mundo material como glitches espaciotemporais.

O tema é soberbo! A ideia central, de misturar futurismo punk com superstição Cantonesa num futuro degenerado, governado por gigantes multinacionais, prende o interesse pela originalidade. Lamentavelmente, são nos detalhes importantes à imersão que se perde o investimento na história. História esta que, almejando-se como qualidade fulcral, leva a que muito da mesma desmorone.

Alguns aspetos são deveras conflituosos e até um pouco absurdos. A mescla de culturas orientais e ocidentais, apesar de recorrente no género, parece muito artificial em Sense. Os conhecimentos da Mei sobre a tecnologia e a cultura do século XX, inexistente no seu presente de 2083, aparentam-se fora do lugar. Como exemplo, conhecimento das betamax o que, mesmo atualmente, iludiriam muita boa gente.

 

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Uma imagem que poderia ter sido retirada de um filme de terror japonês.

Também a apontar a sua familiaridade com a cultura popular da nossa atualidade – particularmente anime e manga – a par da inexistência a alusões à da época. Tal como saber o que são agrafos ou clipes, apesar de já não se usar papel – em nenhuma forma. Ou até, o imediato reconhecimento de um acontecimento como a guerra do Vietname, a partir de uma simples fotografia – em papel… que não existe na sua época…

Ainda os conflitos internos são cronologicamente deslocados e por vezes disparatados. Mei-Lin, ora aceita imediatamente a realidade das entidades e fenómenos preternaturais que a atormentam, como ao longo de toda a sua aventura constantemente age com incredulidade perante os mesmos. Num minuto usa uma oferenda religiosa para banir um espírito, convicta que essa ação irá funcionar apesar de não haver nenhuma indicação para tal, como no próximo não acredita ser possível uma televisão se ligar sozinha.

Houve uma tentativa de juntar toda uma série de clichés de ambos os géneros, seguindo uma premissa imaginativa e bem sólida, mas atulhá-los incoerentemente na narrativa.

Em resumo, a história lê-se como uma fanfiction de si mesma.

 

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No menu do PDA, para além do diário, podemos consultar o inventário, o mapa, alterar a vestimenta da Mei, ou ainda visualizar as fotos a aparições – shinrei shashin – inspirado em Fatal Frame.

 

Mais para uns sentidos que outros

Se a banda e efeitos sonoros, pontuais e certeiros, por vezes nos recordam do Pesadelo em Elm Street, outras do Blade Runner, é o ruidoso e incaracterístico – independente do tipo de piso – som dos tacões da protagonista que mói a paciência.

Com o cuidado nos cenários e ambiência visual – como referido, louvável – é lamentável que a direção artística, no que toca à heroína, seja focada naquilo que só posso definir, numa expressão, como sendo “fan service”.

Não sendo partidário da noção de que qualquer sexualização de uma personagem feminina, constitui imediata objectificação. E que, como tal, é uma demonstração incontestável de sexismo. Não posso, no entanto, deixar de preferir que tivesse sido perdido menos tempo a animar os amplos seios da Mei – que balançam com qualquer ligeiro movimento seu – em detrimento de uma animação minimamente fluída para o seu caminhar/correr ou, pelo menos, transição entre estes.

Por fim, em termos de jogabilidade, os quebra-cabeças são de dificuldade moderada; ideal para o jogador casual. Os momentos de ação frenética são espaçados, promovendo o seu bom solucionar. Já a ordem imposta em algumas resoluções, serve apenas para fomentar um escusado andar de um lado para o outro, numa tentativa de artificialmente prolongar a longevidade do jogo.

É de referir a existência de alguns bugs, sem que nenhum arruíne a experiência.

Uma vez que a equipa de desenvolvimento foi célere no lançamento de um patch que resolveu muitos dos erros de lançamento, é evidente o carinho que detêm pelo projeto. Isto, inspira confiança num desenvolvimento de melhorias e correções contínuo.

 

Aparições Tecnológicas

Sense – 不祥的预感: A Cyberpunk Ghost Story, é um jogo com um bom tema envolvente e uma jogabilidade interessante, se bem que derivativa.

A atenção na criação do mundo, tanto em macro como microescala, é notório. Está muito próximo de ser uma entrada de qualidade, não fosse o recurso exagerado aos estereótipos, que acabam por retrair mais do que sustentar uma narrativa coesa e imersiva.

Alguns gostos pessoais podem estar em linha com as prioridades estabelecidas pelos autores. Se assim for, para esses jogadores, à parte dos toleráveis bugs, o jogo não terá quase nenhuma falha.

positivo Ambiente bem conseguido
positivo Tema original

errado Animação e arte da protagonista
errado História pouco imersiva
errado Progresso errático
errado Bugs na jogabilidade

Data de Lançamento: 25 de agosto de 2020
Produtora: Suzaku
Editora: Top Hat Studios
Género: Aventura
Disponível para: PC, Playstation 4, Xbox One, Nintendo Switch (consolas brevemente)

Foi disponibilizada uma cópia do jogo para análise por parte da editora. (PC)

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