Lost Ember – Análise

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Lost Ember, agora na Nintendo Switch, é um jogo de aventura em que somos levados a explorar e experimentar um mundo vibrante, na pele de vários animais.

Um cosmos onde, após a morte, as almas – brasas ou, em Inglês, embers – dignas, são aceites na Cidade da Luz, a sua moradia eterna. Já as não merecedoras, são banidas e adotam formas animais.

Neste indie, assumimos o papel de uma loba que é a encarnação de uma “brasa perdida” – a epónima do jogo – rejeitada pela Cidade da Luz. Somos então incumbidos de ajudar uma outra alma a chegar à Cidade, e pelo caminho vislumbrar rasgos do passado.

Para o conseguir, teremos de recorrer à capacidade que a nossa protagonista de quatro patas tem, de possuir outras formas de vida animal, e usar as suas particularidades de locomoção para suplantar obstáculos que se apresentam no caminho.

Desde apoderar-se do corpo de um wombat para percorrer túneis estreitos, um pato para poder planar, peixes para nadar, tatus para escavar, escalar escarpas com cabras das montanhas, ou mesmo voar pelos céus na forma de colibri ou papagaio. Estes são apenas alguns – se bem que os mais abundantes – animais que podemos possuir e controlar durante a nossa aventura.

 

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Pormenores como a névoa ou os reflexos à superfície da água, contribuem para a atmosfera relaxante e encantadora.

Encontrar o rumo certo

A mecânica é muito simples. Andamos em busca de uns pontos vermelhos, semelhantes a pequenos fogos, onde podemos visitar memórias da vida humana da loba. Assim, progressivamente quebramos as barreiras místicas que impedem o avanço da alma que acompanhamos – a pequena esfera de luz vermelha que conversa connosco e nos guia – na esperança de alcançar a Cidade da Luz e procurar garantir entrada de ambas as almas.

No entanto, resumir Lost Ember a um jogo de checkpoints, é um enorme desserviço.

Este título contém uma forte componente narrativa. Não apenas na tagarelice do nosso companheiro etéreo, nem tão pouco nas visões do passado que visitamos, mas porque, segundo dizem, uma imagem vale por mil palavras. Toda a majestosidade do ambiente serve para contar a história.

Lost Ember, pinta um poema visual único, seja graças às ruínas de uma antiga civilização, os Yanren; à beleza da vida animal e vegetal; ou à diversidade de biomas e ecossistemas que visitamos. Sem esquecer as planícies noturnas banhadas em estrelas e luzes de pirilampos, florestas exuberantes ou vastos desertos áridos, ou até montanhas geladas ou colinas ventosas cerradas em bruma.

O jogo é uma entrada arrojada, quer pela sua vastidão, quer complexidade dos ambientes tridimensionais. É um dos poucos os títulos desta dimensão com tal detalhe gráfico e atenção ao pormenor que, sem nunca comprometer a direção artística, por vezes nos dá a parecer termos mergulhado num projeto saído dos estúdios Ghibli.

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Com tanto para ver e visitar, não admira que a loba se perca…

Claro que para um indie, visuais desta envergadura não poderiam existir sem o ocasional solavanco. Sejam pelas raras ocasiões em que certas texturas não carregam devidamente; objetos sem caixas de colisão; ou, o mais frequente, ângulos de visualização forçados que cortam o protagonista do ecrã e que, em casos extremos e locais apertados, permitem ver para além das paredes.

As texturas, no geral, estão bem detalhadas. Já alguns modelos, pecam pela sua simplicidade. Contudo, tudo isto é delegado para segundo plano, num jogo em que a vegetação se move quando passamos ou é esmagada quando a pisamos. Em que, a ideia de que é a esfera cintilante que nos está a guiar, uma vez que ela voa sempre à nossa frente, está muito bem conseguida – quando na verdade é o movimento da loba que orienta a esfera.

Ainda mais, pelo facto de podermos assumir a forma de uma tartaruga e deitarmo-nos ao sol, ou de uma preguiça e relaxar pendurada num ramo de uma árvore, só porque sim. Inclusive, em vez de apenas usar os outros animais para prosseguir na viagem, somos totalmente livres de simplesmente passar uns minutos a viver as suas vidas. Uma vez que, todos eles possuem variadas animações tais como deitar ou comer, que apenas servem para aumentar a imersão.

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Nunca um pato voou tão alto…

 

Nem todos os que vagueiam estão perdidos

Nisto reside um dos principais prodígios de Lost Ember. Apesar de, e se nos limitarmos a correr de visão em visão – e não nos perdermos pelo caminho – o jogo se poder completar em poucas horas, é sempre possível perder muitas outras só a nos deleitarmos com as resplandecentes paisagens e a sua rica fauna e flora.

Para tal, o jogo faz um excelente trabalho na sua ilusão de um mundo totalmente aberto. Os cenários são tão vastos que as barreiras físicas, que delimitam o mundo ou nos forçam a adotar determinada forma animal para avançar, nos parecem perfeitamente naturais. Além disso, não existe mapa – a vermos bem, uma loba teria alguma dificuldade em o usar, visto não ter polegares oponíveis…

Tudo isto proporciona uma exploração deveras envolvente e desafiante. A interface gráfica é do mais minimalista possível. Não existem sequer indicações no ecrã, que não as situacionais instruções de controlos. Nem sequer podemos morrer e por isso não há necessidade de barra de vida. Até nas quedas um pouco mais altas, simplesmente reaparecemos na plataforma onde estávamos.

Existem também circunstâncias com eventos temporizados de premir botões que, para além de relativamente fáceis, podem ser removidos no menu das opções. Se falharmos, temos só de tentar de novo.

Por outro lado, a ausência de mapa e facto dos checkpoints serem difusos, podem não agradar a todos os gostos. Porém, há que ter em conta que Lost Ember é precisamente um jogo de pura exploração e imersão, onde podemos perder horas no mesmo local em busca de todos os segredos escondidos, sejam eles relíquias (com um pouco de folclore a acompanhar), várias espécies de fungos, ou animais lendários (formas reluzentes de alguns dos animais existentes).

É um estilo de jogabilidade um pouco como marmelada ou manteiga de amendoim, nem toda a gente aprecia; mas, quem gosta, adora!

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As pequenas chamas pelo caminho, guardam o segredo do passado da nossa amiga loba.

Resta dizer que apesar da filosofia de exploração relaxada, mas hardcore, o progresso pode facilmente ser consultado e revisitado graças à divisão em capítulos, sendo que, em cada um destes, se pode verificar o número e tipo de segredos por descobrir.

Por último, quem conseguir tirar o pulso à narrativa, verá que a história não lhe irá reservar surpresa alguma. Todas as pequenas reviravoltas, iconologias, e mensagens subliminares, são bem características deste formato de narração.

Isto não quer dizer que a história seja puramente derivativa ou desprovida de originalidade, muito pelo contrário. Apenas que não subverte expectativas ao género em que se enquadra, não obstante o facto de se apresentar sólida e bem compassada. Para além disso, ainda é bem capaz de, mesmo não surpreendendo, proporcionar uma viagem interessante e apresentar um decente conflito interno, num jogo sem conflitos externos – exceto “encontrar o Norte” ou ter a certeza que já não passamos por aquela mesma árvore três vezes!

 

 

Almas em brasa

Lost Ember é um testamento aos jogos de vídeo como forma de arte audiovisual e narrativa, não devendo ser julgado pelas suas ocasionais imperfeições, fruto das limitações inerentes à escala do desenvolvimento, nem pela sua longevidade relativa.

Trata-se de uma janela para um mundo imaginário e tranquilizante, cuja exposição ao longo do nosso itinerário se assemelha a uma fábula, repleta de paisagens deslumbrantes e alegóricas.

Fortemente recomendado a quem se quiser perder, nem que seja por uns instantes, na sua jornada ímpar.

positivo Cenários e detalhes deslumbrantes
positivo Exploração imersiva
positivo Narrativa no tom de uma parábola

errado Nada a apontar

Data de Lançamento: 24 de setembro de 2020 (Nintendo Switch)
Produtora: Mooneye Studios
Editora: Mooneye Studios
Género: Ação, Aventura
Disponível para: PC, Playstation 4, Xbox One, Nintendo Switch

Foi disponibilizada uma cópia do jogo para análise por parte da editora. (Switch)

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