Inspector Zé e Robot Palhaço em: Crime no Hotel Lisboa – Análise

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Se falássemos de um detetive de sobretudo e chapéu alto numa consola da Nintendo, à primeira vista estaríamos a falar do Professor Layton.

Quer dizer… Assim mesmo à primeira, o que nos saltaria à vista seriam o berrante amarelo da dita gabardina e o azul claro do ilustre chapéu. Em seguida, talvez o facto do seu companheiro nas andanças investigativas ser um robô voador cujo sonho, diz ele, era ser palhaço num circo. Bem, então ele abriria a boca, e em vez de um moderado e bem articulado Inglês de sua majestade, seriamos presenteados com um elegante e vanguardista bom velho Português ali da tasca do Manel!

É mesmo verdade! O Inspetor Zé e o Robot Palhaço chegaram finalmente à Nintendo Switch, na adaptação do original Crime no Hotel Lisboa.

O duo maravilha vem provar que quando um inspetor Português e o seu “retrofuturista saidequique” – como diria o grande Zé – estão em cima do caso, ou assim um bocado ao lado às vezes, não há assassino que lhes escape!

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Robot Palhaço, um assistente sempre pronto a assistir

 

Um Crime que dá que falar

Fazem agora sete anos e uns trocos, que Inspector Zé e Robot Palhaço em: Crime no Hotel Lisboa foi lançado pelos portugueses Nerd Monkeys. E também, três anos desde que uma petição online os pôs a trabalhar na adaptação do título para a Switch. Segundo as declarações oficiais e confidenciais – pelo menos até agora – dos próprios, um período de espera totalmente razoável e em conformidade com o bom costume português, e o tempo de espera nas filas das finanças.

Originalmente, uma aventura “point and click”, chega-nos agora mais como uma de só clique ou botão-e-botão. Ou seja, na conversão do título, o movimento do rato foi substituído pelo do comando da consola que funciona de forma bastante fluída e intuitiva. Foi tirado também proveito do ecrã tátil da Switch, e podemos interagir diretamente com o cenário através de um toque no ecrã – mas ninguém impede de apontar antes de clicar, se tiver mesmo de ser.

Típico no género, o foco do jogo é a narrativa, que se desenrola à medida que falamos com personagens ou exploramos os objetos em redor. Dois são então os aspetos fulcrais neste género, a narração e a arte visual, sendo o segundo ponto importante, na medida que ajuda à investigação e resolução de enigmas, bem como à imersão na história.

A jogabilidade é então remetida um pouco para segundo plano, salvo a existência de problemas graves ao ponto de interferirem com os dois aspetos supracitados. Felizmente, na adaptação deste título, tal não acontece.

É certo que existem alguns problemas na navegação. Em certas instâncias, clicar duas vezes na mesma personagem ou objeto não funciona, e temos de mover o cursor e voltar a selecionar. Outra situação, e que pode bem ser intencional, é que nem sempre os objetos sobre os quais movemos o cursor se destacam do resto do cenário – um indicador de que podemos interagir com este.

 

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Trocadilhos. Certamente, o superlativo da comédia.

Apesar disso, e conforme referido, esses acontecimentos são raros e em nada interferem com o apreciar da intrépida – ou pelo menos irreverente – aventura dos investigadores epónimos.

Em Inspetor Zé e Robot Palhaço, vamos recolhendo pistas e entrevistando testemunhas e suspeitos, de forma a poder realizar interrogatórios mais detalhados, que permitem dar um passo em frente na resolução do crime. Nada que não fosse já característico no género.

Mas a mecânica que destaca este jogo, é a chamada “pergunta e objeto”. Um minijogo com várias rondas em que se interrogam minuciosamente as personagens. Neste modo de jogo, somos incumbidos de associar uma pergunta (de entre três possíveis) a uma das várias provas que recolhemos e, se acertamos nesta associação, o interrogado deixa escapar mais informação e avançamos para a ronda seguinte.

Uma particularidade interessante é a de podermos realizar este questionário, tanto com o Zé como com o Palhaço. Tendo em conta que as personalidades de ambos são diferentes, bem como a dos vários interrogados, é crucial escolher a pessoa – ou torradeira falante – certa para o interrogatório.

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Algumas das frases nos interrogatórios diferem em subtilezas apenas. Isso, e a enorme quantidade de itens que vamos acumulando, impossibilitam fazer os interrogatórios à sorte e ao calhas.

 

Porque rir é o melhor remédio, assim se remedia um crime

Se Crime no Hotel Lisboa é uma adaptação bem conseguida do original, e apresentando algumas mecânicas interessantes para variar um pouco num gênero de jogo repetitivo, falta incidir nos dois aspetos importantes, que fecham a execução do título com chave de ouro.

A resolução do jogo é de 256×192 pixéis. Grotesco, não? Longe disso!

Na verdade, podendo por vezes custar um bocado a distinguir certas letras (principalmente no grande ecrã, em que cada pixel fica muito maior), a resolução escolhida e a execução artística combinam que nem bitoque com batatas fritas. O estilo colorido e caricato das ilustrações, os elementos animados – de exemplo, carros e elétricos em primeiro plano – e a atenção aos mais pequenos detalhes, conferem uma aparência vintage a este retratar da Lisboa na década de 80.

Uma orientação estética, definitivamente em harmonia com o sujeito retratado, bem como nostálgica na sua reminiscência a uma era passada da história dos videojogos.

Também a banda sonora não fica atrás. Apesar de limitada – devido em parte à própria curta longevidade do jogo – está bem animada e sempre em linha com a história ou o local em que nos encontrámos, incluindo uma banda jazz num bar ou até – correndo o risco de estragar uma pequena surpresa – uma interpretação do fado Caldeirada.

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No fim, a distração e irreverencia do Zé, acaba por ser mais do que um recurso humorístico, mas não quero dar spoilers…

Mas se a apresentação audiovisual é de qualidade, a narrativa é soberba!

Honestamente, não me consigo recordar da última vez que me ri tanto e tão alto a jogar um jogo de vídeo! O humor mordaz, por vezes brejeiro, sugestivo e repleto de trocadilhos é, em partes iguais, genial e hilariante.

Mais do que estar escrito na nossa língua materna, o típico sentido de humor Tuga transparece, e não acredito que exista português no mundo capaz de lhe ficar indiferente – a menos que seja um daqueles sisudos que todos conhecemos, mas que também não jogam nada nem se sabem divertir e por isso não entram nas contas.

Mas não pensem que os diálogos se resumem a piadas fáceis, umas atrás das outras. Sim, “elas andem aí”. A caracterização (e “caricaturização”) dos personagens é tão diversificada quão soberba – com alguns clichés à mistura. As piadas muitas vezes são mais sub-textuais, e o humor irrompe constantemente a quarta parede. Desde um público que volta e meia se levanta para aplaudir a entrada de um personagem novo ou uma mudança de cena, como se estivéssemos a assistir a teatro de revista; até um robot que continuamente se refere a save games e sidequests – perdão, “saidequestes”.

Estão presentes também elementos do absurdo. Seja na forma de um táxi que vai realmente a todo o lado, até mesmo ao interior de edifícios. Ou no facto de o Palhaço ser um robô com um portal interdimensional na sua Gaveta Infinita 3000, onde reside uma criatura eldritch chamada Joãozinho, que toma conta do nosso inventário.

 

Um título nacional ligeiro, robusto, e de qualidade

 Não podia terminar sem reiterar que Inspetor Zé e Robot Palhaço em: Crime no Hotel Lisboa, é um jogo em português (e inglês também, pronto), feito em Portugal, por portugueses.

Isto não é dizer que o título valha a pena, ou deva ser adquirido apenas por ser nacional. Mas sim que – e uma vez que sempre se perdem nuances numa tradução – poder desfrutar de uma história em português, com todas as idiossincrasias da nossa língua e da nossa cultura, é de facto uma experiência da qual (muito infelizmente) ainda não podemos fazer parte todos os dias.

Esta entrada de Inspetor Zé e Robot Palhaço é uma verdadeira ode ao bem fazer do povo português! Mesmo quando são uma cambada de macacos nerds que põem as mãos à obra…

positivo Humor hilariante em bom português
positivo Estereótipos nacionais caricaturados
positivo Arte bem idealizada e executada
positivo Minijogos, “saidequestes” e “achievementos”

errado Podia ser mais longo de tão divertido que é

Data de Lançamento: 30 de setembro de 2020
Produtora: Nerd Monkeys
Editora: Nerd Monkeys
Género: Aventura, Puzzle
Disponível para: PC e Nintendo Switch

Foi disponibilizada uma cópia do jogo para análise por parte da Nerd Monkeys. (Switch)

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