Baldur’s Gate 3 – Análise Early Access

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Um texto de Nuno Marques (Redator no Rubber Chicken)

Existem combinações feitas no céu e depois existe a junção de Larian Studios com Baldur’s Gate. O estúdio é bem conhecido pelo franchise Divinity, um monólito do género RPG que, ao longo de sucessivas tentativas, tem-se tornado na representação mais próxima da experiência Dungeons and Dragons na forma de videojogo. Prezando um combate com várias camadas de interatividade, árvores de diálogo e escolha extensas, assim como uma escrita que mistura o humor e a seriedade de uma maneira única, os jogos da Larian têm conquistado os corações dos jogadores mais ferrenhos dos RPG da velha guarda e revitalizado o género de uma maneira incrível.

Do outro lado temos a Bioware, o estúdio criador do Baldur’s Gate original e da sua sequela, assim como muitos outros RPG aclamados, como Jade Empire, Star Wars: KotOR, Neverwinter Nights, Mass Effect e Dragon Age. Este último é dos meus jogos favoritos de sempre e a razão principal pelo meu interesse no género comummente designado computer RPG (CRPG). Infelizmente, a Bioware não tem tido uns bons últimos anos, com a receção tépida de Mas Effect: Andromeda e o lançamento caótico de Anthem. Estes percalços levaram a um adiamento e quase completa reestruturação do próximo jogo da empresa, tentativamente chamado Dragon Age 4, o que deixou muitos fãs preocupados com o estúdio, mas também com o futuro do género. Não é então de estranhar que o licenciamento de Baldur’s Gate a um estúdio como a Larian tenha gerado ondas entre os fãs, criando um burburinho de excitação e ansiedade. Com o lançamento do Early Access de Baldur’s Gate 3, finalmente podemos começar a perceber se este retorno à Sword Coast tem ou não pernas para andar.

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A keyart do jogo dá foco aos cinco companheiros ou cinco origens que podemos escolher para a nossa própria personagem.

Um ligeiro aviso antes de entrar na review per se: Estando BG3 em Early Access, existem vários aspetos com pouco polimento, nomeadamente animações ou cenas em falta e alguns bugs. Vou-me focar mais no potencial do jogo em questão, até porque durante as mais de 13 horas que joguei, os glitches foram mínimos e tive apenas um crash, o qual não me fez perder nenhum progresso.

O jogo começa com um character creator bastante completo. Temos 8 raças por onde escolher, algumas das quais com as suas próprias sub-raças. Além disso, podemos escolher a classe da nossa personagem entre 6 tipos muito comuns em jogos de fantasia. Todas estas escolhas afetam os stats, assim como os feitiços, cantrips e vantagens da nossa personagem. É tudo muito familiar e simples para quem está habituado à criação de personagens de Dungeons and Dragons, no entanto, a Larian achou por bem criar não só a possibilidade de escolher uma build recomendada, como também de escolher jogar como uma personagem pré-feita com uma origem específica. Ambas as opções facilitam a vida a jogadores menos experientes, ou menos interessados em espremer todo o sumo da sua personagem. Tratando-se de um jogo em Early Access, a Larian conseguiu já oferecer um pacote bem interessante, com a promessa de mais e melhor na release final. A variedade de rostos e a sua personalização podia ser um bocado melhor, mas tirando isso, é um bom começo.

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Quem perdeu uma hora a fazer elfos e tieflings sexys e acabou por criar um humano aborrecido??? Talvez eu…

Somos lançados para a história a bordo de um Nautiloid, uma embarcação capaz de viagens interdimensionais, após termos sido raptados por Mindflayers, uma raça de polvos cósmicos antropomórficos conhecida por subjugar e controlar outras raças com os seus poderes psiónicos. Somos presenteados com uma sequência inicial arrepiante, em que nos colocam um parasita no interior do nosso olho. Felizmente, a embarcação é atacada e, após muitas tribulações, somos libertados da nossa jaula.

Através de uma colega de prisão, aprendemos que nos encontramos numa situação extremamente complicada: Se não fizermos nada, o parasita no interior da nossa cabeça vai-nos transformar num mindflayer e controlar a nossa mente. Munidos de um novo objetivo e acicatados por um destino pior do que a morte mesmo no horizonte, encetamos então uma demanda na procura de uma eventual cura para o nosso problema. Ao longo do caminho vamos descobrir aliados, inimigos, situações hilariantes, ridículas, mirabolantes e, possivelmente, desvendar que há algo de mais sinistro por trás dos nossos pequenos parasitas. Não quero spoilar nada, por isso a descrição fica por aqui. Fica claro nos momentos iniciais que, independentemente do seu estado de Early Access, BG3 é um jogo bonito, particularmente no que toca às animações faciais que são extremamente expressivas.

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Preparem-se para situações completamente ridículas que, no contexto da história, fazem perfeito sentido

No seu âmago, Baldur’s Gate 3 é um jogo típico da Larian com algumas inovações. Controlamos até 4 personagens. Estas começam em nível 1 e vão adquirindo experiência através de combate ou completando quests. À medida que vão subindo de nível, adquirem novas habilidades e stats, e até a possibilidade de evoluírem para subclasses. Nesta fase inicial do Early Access, estamos limitados a um nível máximo de 4. Além disto, temos uma panóplia de equipamento e acessórios para as nossas personagens, com a possibilidade de carregar armas de longo e curto alcance ao mesmo tempo.

As quests mencionadas anteriormente não só são a nossa fonte principal de experiência, como também são a forma de progredir na história. Normalmente, envolvem três facetas do jogo: Diálogo, Exploração e Combate. Como num jogo de D&D, todas estas facetas giram à volta de uma mecânica de rolls, em que são lançados dados e o resultado deste lançamento é comparado com um número-alvo, resultando daí o sucesso ou falhanço das nossas ações.

A exploração ocorre em tempo real até que entramos num cenário de combate ou de diálogo. Embora seja o aspeto menos bem explorado (trocadilho intencional) do jogo, existem alguns segredos e zonas escondidas para explorar, normalmente com recurso a uma habilidade de salto que a Larian decidiu introduzir no seu novo jogo. O momento em que me senti mais recompensado por explorar foi quando descobri um caminho alternativo que me permitiu ganhar um combate particularmente difícil. Este caminho permitiu-me aproximar silenciosamente das unidades mais perigosas do inimigo e eliminá-las rápida e seguramente do topo de uma escarpa.

Existem doces migalhas de exposição e construção do mundo que ajudam a dar vida a Faerûn, quer através de itens que podemos encontrar, personagens que oferecem um conselho, uma conversa animada e até uma ou outra canção. O mundo é imersivo, colorido e cheio de humor e tragédia, algo que achei surpreendente, dado que este Early Access só corresponde ao primeiro ato do jogo. Por vezes, encontrava-me ligeiramente perdido no meio de tantas quests disponíveis simultaneamente. Um tracker melhor com a opção de ligar ou desligar quests, é algo extremamente importante para este tipo de jogo e ainda não está presente no Early Access.

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A interface pode parecer avassaladora, mas em pouco tempo habituamo-nos e torna-se muito legível.

O combate ocorre por turnos e segue as regras de D&D. Controlamos um grupo com um máximo de 4 personagens e todos os turnos temos uma ação normal e uma ação bónus. Os rolls são mostrados ao jogador na forma de probabilidades e cabe-lhe explorar variáveis como buffs, debuffs, posicionamento vertical, etc.. para tornar estes rolls mais favoráveis e atingir a vitória. O que torna este sistema de combate tão aliciante é a flexibilidade e interatividade que oferece ao jogador. Se quisermos recorrer a stealth para evitar os combates ou começá-los de uma maneira mais vantajosa, podemos manualmente entrar no modo por turnos e preparar a nossa party para um próximo confronto, usando buffs e separando a party em grupos diferentes para realizar manobras mais complexas. Além disso, em quase todas as situações, há um fator ambiental que pode afetar os combates, seja a existência de barris explosivos, óleo ou água no chão, ou simplesmente uma elevação da qual podemos atirar os nossos inimigos com um empurrão. No caso de não haver, podemos recorrer a habilidades ou consumíveis que nos permitem criar situações mais vantajosas e danos ambientais.

A IA é extremamente competente e tem sempre um trunfo na mão para nos surpreender, o que cria um sistema de combate que raramente cai no aborrecido ou fácil. Penso que a curva de dificuldade precisa de alguns ajustes pois a maior parte dos combates de BG3 é extremamente desafiante, necessitando de quase todos os recursos ao nosso dispor. Felizmente, temos a possibilidade de fazer um short rest por dia para recuperar os usos de certas habilidades e um pouco de vida, assim como podemos dar o dia por concluído e voltar ao nosso acampamento, recuperando toda a vida e habilidades.

Este acampamento lembra-me muito o acampamento de Dragon: Age Origins, onde podemos falar com os nossos companheiros num ambiente mais relaxado e desenvolver relações com os mesmos, ou onde ocorrem sequências de história inesperadas. Pela natureza do Early Access, este sistema ainda está muito pouco desenvolvido, mas já dá para antever que a qualidade de escrita e as ideias por trás de cada personagem estão bem alicerçadas e há muito potencial. Este deve ser um dos pontos mais atraentes do jogo para mim porque desde o último Dragon Age que tenho estado com sede de um elenco de personagens colorido e bem desenvolvido num RPG deste tipo.

De qualquer maneira, a extensão e possibilidades do sistema de diálogo são incríveis, oferecendo quase sempre duas ou três soluções diferentes para qualquer situação, muitas vezes acabando em resultados completamente diferentes. O sistema chega ao ponto de nos fazer pensar com qual das nossas personagens iniciar o diálogo, pois cada uma tem vantagens ou estatísticas melhores para diferentes tipos de diálogo, como persuasão, conhecimento do mundo mágico ou natural, intimidação, para mencionar apenas algumas. Podemos até mudar de personagem enquanto estamos dentro de um diálogo e reposicioná-la no mapa, em preparação de uma situação que vemos tornar-se cada vez mais hostil. Basicamente, os três pilares mencionados anteriormente entrecruzam-se perfeitamente e oferecem uma liberdade e capacidade estratégica incrível ao jogador a todos os momentos do jogo.

O problema da complexidade é que por vezes é fácil ficar paralisado com tanta escolha e, como já mencionei anteriormente, Baldur’s Gate é um jogo extremamente desafiante. Para aqueles que procuram algo do género, este é um ponto alto do jogo, com combates que por vezes se estendem a uma hora ou mais. No entanto, acho que a Larian Studios faria bem em oferecer um modo mais fácil para a release final, pois seria uma pena um mundo tão denso e rico não ser explorado apenas pela dificuldade do combate.

Em conclusão, fiquei extremamente satisfeito com o Early Access de Baldur’s Gate 3 em termos de antecipar o potencial do jogo final. No entanto, apenas o posso recomendar a fãs do género, pois existem várias cinemáticas incompletas e animações a precisar de algum trabalho. O jogo tem muita complexidade e conteúdo em todos os seus aspetos, tem um design artístico forte e chamou à superfície as minhas memórias mais doces do tempo que passei com Dragon Age: Origins, o que é um bom sinal para o futuro. Vou seguir atentamente a adição de conteúdo ao que, pelo menos para mim, poderá ser um dos jogos do ano de 2021.

positivo Flexibilidade e personalização insólitas em quase todos os aspetos do jogo
positivo Personagens interessantes e boa escrita
positivo Direção artística e bom grafismo

errado Combate bem difícil para os não familiarizados com o género
errado Estado de Early Access traz consigo alguns glitches
errado Tracker de quests pouco funcional

Data de Lançamento: 6 de outubro de 2020
Produtora: Larian Studios
Editora: Larian Studios
Género: RPG
Plataformas: Microsoft Windows, Google Stadia, MacOS

Foi disponibilizada uma cópia do jogo para análise.

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