Gaveta Retro – Dragon Ball Z: The Legend

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Hoje a Gaveta volta a abrir e o que sai lá de dentro é a mistura de entretenimento estrangeiro mais bombástica que Portugal viu nos anos 90.

SEGA? Confere.

Dragon Ball Z? Confere!

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Uma visão muito comum nas secções de entretenimento e lojas de eletrónicos em Portugal, a meados dos anos 90…

Portugal já tinha demonstrado muito bem a sua maluquice pela série. Importada de França, no início era mais uma série de “desenhos animados japoneses” – sim, porque isto foi antes do advento da explosão do anime como subgénero para os conhecedores. No entanto, rapidamente tomou um rumo épico… e porquê?

Ainda durante a prequela Dragon Ball, reza a lenda que o guião tinha sido traduzido da versão francesa e estava constantemente a sofrer alterações. A editora pedia continuamente à equipa de dobragem que tirasse cada vez mais violência às traduções, de modo a que a série fosse apropriada para espetadores de todas as idades. A certa altura, a equipa desistiu e atirou o conceito original pela janela – e começou a introduzir humor português às dobragens. E foi assim que, pouco a pouco, Dragon Ball Z se tornou um fenómeno cultural. Muitos dos episódios traziam referências a outros marcos culturais portugueses da altura, como as canções “Mãe Querida” e “O Jardim da Celeste”, o “Big Show SIC” de João Baião, o respeito pelo fado, a Miss Portugal 97, e por aí adiante…

Convém notar que isto tudo ocorreu numa fase em que o acesso das pessoas a conteúdo era extremamente limitado. A meio dos anos 90, o acesso à internet em Portugal era limitado a uma elite – e esta era uma fase em que transferir um ficheiro MP3 de 3 MBs podia demorar 2 horas de internet dedicada, quanto mais um vídeo! Não havia sequer a questão de preferir a versão original, porque não fazíamos ideia como era. A dobragem era tudo o que conhecíamos.

Portugal era tão maluco por Dragon Ball Z que foi o único país a fazer bundles com o jogo na venda da Saturn. A minha foi uma destas!

Voltando aos jogos!

Portugal, que graças aos incríveis feitos de marketing da antiga EcoFilmes, foi um país em que a SEGA obliterou completamente a Nintendo até à geração dos 32/64 bits. Uma proporção interessante das habitações portuguesas tinham uma SEGA. A certa altura, saiu um jogo de Dragon Ball Z para a Mega Drive…

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“L’Appel Du Destin” na Mega Drive. Os jogos europeus de Dragon Ball desta fase eram em francês, visto que Dragon Ball só chegou aos países anglófonos bem depois do oeste da Europa. O primeiro episódio de DBZ nos Estados Unidos saiu no fim de 1996, quando Portugal já ia na Cell Saga.

 

As importações da versão francesa não devem ter sido as suficientes, e o que aconteceu foi algo que deve ter sido um esforço épico na altura: a versão original japonesa do jogo era vendida na maioria das principais lojas portuguesas… juntamente com um conversor de NTSC-J para PAL!

Nem com o fenómeno da globalização e das vendas pela internet – que tornou possível a quase qualquer um a aquisição de dispositivos conversores de consolas, algures já dentro deste século – alguma vez se voltou a ver isto a ser feito numa escala nacional e mainstream, especialmente para um mercado de importância inferior como o português.

Se viram alguma situação semelhante, digam-nos nos comentários!

Entretanto, a Saturn surgiu e começou a herdar o mercado da Mega Drive. O Japão produziu dois jogos de Dragon Ball Z para a nova criação da SEGA: Shin Butoden e Idainaru Dragon Ball Densetsu. O primeiro ficou-se por ser um sucesso de culto no Japão. Mas a certa altura, França decide investir na localização do segundo… e aqui estamos.

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Uma imagem icónica para os gamers portugueses, mas que só esteve à venda em quatro países: Japão, França, Espanha e Portugal!

Obviamente que os mercados ibéricos não perderam esta oportunidade, e toda uma geração de portugueses aprendeu algumas palavras de francês…

Talvez algum dia nos dê jeito saber o que é chergemant!

Quanto ao jogo propriamente dito – é bastante interessante, com conceitos nunca mais vistos em jogos do género, e sem dúvida que é extremamente contagiante atravessar os modos de single player, mas tem alguns exemplos de falta de polimento que o tornam impraticável num contexto competitivo: pode-se defender e contra-atacar ao mesmo tempo, e as bolas ki são puramente um desperdício de energia e de tempo visto que são fáceis de evitar e não têm impacto na barra do “Power Balance”.

Essa mesma barra de “Power Balance” é um ponto fulcral no jogo, mas já lá vamos…

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Gohan, Goku e Krillin unindo esforços para derrotar Nappa.

Graficamente, o jogo é uma espécie de Frankenstein. O jogo decorre em vastas zonas 3D (que são bastante menores em duelos multiplayer), com alguns objetos destrutíveis que pouca diferença fazem no jogo, e com fundos em 2D. As personagens foram também criadas em 2D, com recurso a bastantes sprites que as acompanham em várias perspetivas e em vários tipos de ataques. Por fim, temos os “Meteor Attacks” com animações num dos 3Ds mais básicos que alguma vez encontrarão.

O Kamehameha de Son Goku, na Saturn (esq.) e PlayStation (dir.). Apesar de se ter ficado pelo Japão, este jogo saiu também na primeira consola da Sony. Veio com bastantes diferenças gráficas e de conteúdo em relação à criação da SEGA.

O que define o jogo é o estilo inortodoxo em que as batalhas decorrem, mas que assenta como uma luva naquilo que víamos na televisão. Não estamos a falar de um jogo de luta normal, mas talvez algo como um protótipo frenético e limitado do “Budokai Tenkaichi”: várias personagens que ou estão a tentar manter os seus inimigos à distância com bolas ki, ou estão a aproximar-se a alta velocidade para lhes desferir combinações de ataques que as fazem sair disparadas em todas as direções e sentidos. Por vezes através de pequenas colinas.

A barra de “Power Balance”, anteriormente referida, vai pendendo para o lado da equipa que está ao ataque. Quando uma das equipas tem vantagem suficientes nos embates mais recentes e consegue encher a barra totalmente a seu favor, a personagem que está a ser controlada desfere um “Meteor Attack” no seu alvo: taques especiais e exclusivos a cada personagem, tal como o “Kamehameha” acima. Esta é a única maneira que se pode tirar pontos de vida aos inimigos.
Uma personagem mais forte faz com que a barra deslize na sua direção mais rapidamente.

Cada equipa tem um máximo de três personagens em ação a cada momento, mas chega perfeitamente para ser tresloucado.

Um dos pontos fortes do jogo foi sem dúvida o seu modo Histoire… de história. Ao contrário de muitos dos jogos inspirados no anime, Dragon Ball Z: The Legend percorre todas as batalhas mais importantes de toda a série, desde a batalha contra Nappa e Vegeta até ao duelo com Kid Buu no planeta dos Kais. Ironicamente, isto causou spoilers em territórios lusos – o jogo saiu antes da série acabar!

Através dos 8 capítulos da história, não só damos de caras com uma extensa variedade de personagens, como também somos agraciados com bastantes pérolas relativas à série. Cada um abre com vídeos introdutórios, que explicam o que ocorreu na série até esse ponto. Prestes a começar, entramos num menu em que escolhemos os lutadores que queremos usar no início da batalha. Este menu pode ocasionalmente mostrar os “bastidores” – o que está a suceder com as personagens que não estão ativamente a batalhar.

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O vídeo de início para cada um dos 8 capítulos vem com narração e música de fundo na versão original. A versão localizada para França cortou-lhes as vozes.

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Aqui temos King Kai (Kaib) e Nami a assistir à nossa batalha contra os saiyans invasores – e a dirigir palavras de encorajamento aos heróis. Infelizmente, isto é outro exemplo de conteúdo cortado na nossa versão: na Europa, estas personagens ficam só a observar.

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GINYU TOKUSENTAI!
Também conhecidos por “Forças Especiais” do Freezer.

Hoje em dia este jogo é mais conhecido por ser uma peça valiosa para qualquer coleção, devido aos limites geográficos na sua edição, mas marcou uma geração portuguesa quando saiu. Se nunca experimentaram, aconselho vivamente a tentarem. Para os padrões de hoje em dia, provavelmente não terão mais que três ou quatro horas de entretenimento – mas serão extremamente intensas e positivas.

Autor: João Pires (Ravsieg)

Maluco que cresceu com a SEGA e adora os jogos da era da Saturn, agora faz rádio sobre eles. Ex-profissional da indústria com o sonho de voltar. Venham jogos de desporto, de corrida, "fighters" ou TRPGs! Ah, e Virtual On é BAE. :D

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