Chicken Police – Análise

chicken police análise

É véspera de ano novo. Um detetive a poucos dias da reforma, deposto da sua esquadra, recebe uma inesperada visita. A de uma beldade com pernas que parecem não ter fim, mãos delicadas, voz angelical, e a cabeça de uma impala. A donzela, suplica o intrépido e rijo detetive, um galo, por ajuda.

Aterra-lhe assim um caso misterioso no colo. Aparentemente simples, não fossem as agourentas ligações ao crime organizado levantarem suspeitas de algo mais sinistro estar à espreita.

Um começo auspicioso, e que parece tirado de um thriller de detetives dos anos 40. Não fossem os dois intervenientes referidos, caso o detalhe não tenha sido flagrante o suficiente, uma impala de vestido sedoso e um galo de gabardine.

É assim que começa Chicken Police.

 

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A narração é de boa qualidade, e ao bom estilo do género, o detetive protagonista tem um rasgo de poeta.

 Um mundo cão – literalmente

 Chicken Police, Paint it RED!, é uma visual novel, estilo noir, em que as personagens são animais antropomorfizados. Se a receita parecer estranha, é porque de facto o é. Conhecedores do género noir, estão familiarizados com a sua atmosfera grave e taciturna. Por outro lado, a opção de colocar animais a ocupar o lugar de seres humanos numa sociedade mimética à nossa, dá um travo a comédia formulaica – não estivéssemos já habituados à abundância de desenhos animados onde, no centro da ação figuram animais falantes.

A verdade, no entanto, é capaz de surpreender até os mais céticos. Se, individualmente, cada uma das partes deste insólito cocktail está excelentemente executada, quando se considera o todo, a experiência é bem superior à soma das suas partes.

Neste título, não temos apenas animais no lugar de pessoas, deliberadamente estratificados de acordo com características que ilustram ou que, de outra forma, manifestamente modelam os aspetos mais perniciosos da nossa sociedade ou condição humana. Tal como nas fábulas de Esopo ou La Fontaine de outrora, em que tínhamos a ávida e oportunista raposa, o sábio mocho, ou a incauta cigarra.

Estas metáforas a que estamos bem habituados, procuram por o dedo nas feridas que são as iniquidades de classe ou raça. Mas, de tão habituados que estamos de facto a elas, se vê reduzida a uma ferramenta narrativa que há muito já se tornou cliché. De tal maneira que, muitas das vezes, é empregue até à exaustão, de forma insípida, e nada memorável.

Em todo o seu pessimismo e niilismo temático, Chicken Police – apesar do nome direto e anedótico – não se limita a utilizar a sua caricata senciência animal, e ubiquidade de polegares oponíveis, no emprego indiscriminado de absurdez humorística. O jogo vai bem mais além, e da fusão entre estas identidades, aparentemente irreconciliáveis, cria uma experiência única que as transcende.

Daí ser impossível separar estes dois elementos no avaliar da arte audiovisual e narrativa, bem como na jogabilidade de Chicken Police, uma vez que os “animais que andam e falam”, são muito mais do que um desleixado artifício de distinção.

 

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Sonny e Marty são o duo de detetives maravilha, num reino animal selvagem.

 

 Nem tudo é branco e Noir

Para além da história, são três os elementos, brilhantemente confecionados, que ajudam a enriquecer a experiência trazida pelo jogo: a estética, a dobragem, e a imersão.

Não é a primeira vez que uma obra leva à letra o termo noir, e apresenta-nos uma estética visual a preto e branco, até com um pouco de grão à mistura na imagem. Também não é a primeira vez que, como utensílio diegético, é empregue um ocasional contraste imposto por um ou outro elemento vibrantemente colorizado.

Chicken Police também recorre a este truque visual, à qual acrescenta a típica trilha sonora de um clássico hardboiled, com o seu jazz atmosférico rico em contrabaixo e saxofone. Nada de inovador, mas que está muito bem executado no jogo, ao ponto de por vezes parecer que estamos a ver um filme e não ler uma história. Ainda para mais, quando todos os diálogos – incluindo monólogos do protagonista – estão eximiamente dobrados.

São poucos os jogos em que dou por mim a não sentir a necessidade, mesmo quando ocasional, de passar à frente diálogos dos quais já li o texto. Chicken Police, é um desses casos raros. As falas dos intervenientes são bem expressivas, e estão adequadas às aparentes idiossincrasias de cada espécie animal no geral e indivíduo em particular.

Aliado a isto, temos uma direção artística que fez bem mais do que simplesmente colar cabeças de animais em corpos humanos. As posturas destes, os pequenos elementos animalescos nas suas mãos ou braços, e até mesmo os referidos pormenores na sua dicção, são exemplos da sua excelência.

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Os questionários são por vezes complexos e obrigam a saber que ponto pressionar. E aqueles olhos verdes… distraem qualquer um.

Por fim, temos uma boa imersão. Não apenas restrita aos menus, que se apresentam na forma de um mapa, um bloco de notas, ou uma bolsa com o inventário. Mas, acima de tudo, graças à rica construção do mundo de Chicken Police, cuja extensão vai muito para além do que nos é mostrado ao longo do jogo.

Todo um reino animal e sociedade semi-humana é imaginada e os pormenores desta, muitas vezes bastante subtis, estão presentes à nossa volta. Desde as notas do intrépido detetive que acompanhamos, e às quais este acresce detalhes à medida que os deteta, até à maneira como diferentes animais interagem entre si.

Como já referido anteriormente, o jogo vai bem mais além do que utilizar os animais para preencher os clichés societários por nós a eles atribuídos, graças às fábulas a que estamos habituados. Em vez de diretamente espelhar o nosso mundo, é conceptualizado uma realidade verossímil, se preenchida por estes habitantes quiméricos, e das suas peculiaridades é extrapolado as interações sociais entre estes.

Como por exemplo, quando os insetos são marginalizados a um gueto depois de terem acidentalmente ateado um incêndio que devastou grande parte da cidade – graças à atração que sentem por chamas – ou pelo facto de mamíferos e aves não se darem muito bem, visto serem oriundos de reinos diferentes.

Esta é a melhor forma possível de induzir imersão, que é quando nem nos apercebemos que isso está a acontecer.

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Pequenos pormenores, como os buracos de balas nos alvos repetidos, são interessantes… juro que não queria atingir o refém… nenhuma das vezes…

Por último, temos a jogabilidade que, em Chicken Police, e apesar deste não tirar partido das funcionalidades da Switch na adaptação (ecrã táctil e sensores de movimento), são bastante fluídos e intuitivos. A interação com o cenário, ao estilo dos bons velhos point and click, é eficiente. E o percorrer dos menus, quer durante interrogatórios quer a consultar apontamentos do bloco de notas, faz-se bem com os botões designados no controlador.

Interessante é a escolha de não ser possível gravar e carregar a posição do jogo manualmente. Isto acresce importância a cada escolha tomada, uma vez que é impossível reverter o progresso caso se faça algo de que se arrependa. Como por exemplo, escolher as perguntas erradas durante um interrogatório.

Interrogatórios estes, que estão muito bem concretizados e ajudam à sensação de liberdade na investigação que o jogo procura criar. Também os vários minijogos, tais como tiroteios e perseguições, são uma lufada de ar fresco no contínuo mover de um lado para o outro e interagir com personagens e objetos, típicos ao género.

Além de tudo o resto, existe ainda uma secção de extras, onde podemos colecionar troféus, arte conceptual, colecionáveis, ou visualizar as cutscenes já desbloqueadas.

 

Detetives de Crista Rija

 Em Chicken Police, um duo de detetives galináceos, ao bom – e renovado – estilo noir, é levado numa espiral de intriga e aventura. Esta é uma visual novel que, graças à sua riqueza de diálogos inteiramente dobrados e ocasionais animações, nos dá mais a sensação de estar a participar num filme de época.

Para além do bem trabalhado e povoado mundo, que nos submerge completamente na narração, temos inúmeras referências humorísticas às interações entre as espécies animais. Sempre na dose certa para nos lembrar que afinal, nem tudo deve ser levado demasiado a sério.

A execução soberba da arte e da música ambiente, bem como a história principal justaposta à aparente liberdade nos procedimentos investigativos, fecham o título a chave de ouro.

Chicken Police, Paint it RED!, é um jogo que certamente irá satisfazer tanto os amantes do género policial, como aqueles que gostam de uma boa história de ação com a ocasional leviandade de uma macacada animal – trocadilho propositado.

 

positivo Boa história ao estilo noir
positivo Excelente dobragem e audiovisuais

positivo Mundo peculiar e imersivo

errado Nada a salientar

Data de Lançamento: 5 de novembro de 2020
Produtora: The Wild Gentleman
Editora: HandyGames
Género: Aventura
Disponível para: Microsoft Windows, Mac OS, Xbox One, PlayStation 4, Nintendo Switch

Foi disponibilizado um código para análise. (Switch)

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