Cyberpunk 2077 – Análise

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Faço parte daquele grupo de pessoas que cresceu com Ghost in the Shell e Akira, produções as quais ostentavam enormes cidades de betão, apenas coloridas por neons, das mais variadas cores e formas. Como jovem adulto, sempre foram mundos que me intrigaram e levaram a querer ver, e experienciar, o que seria viver neste tipo de locais. Cyberpunk 2077 acabou por me levar até esses locais; mas será que a magia foi a mesma?

Quem me conhece melhor, sabe bem que as minhas expectativas para Cyberpunk 2077 não eram as mais altas nos últimos meses. Sempre tive interesse, bem como também marcou presença na minha lista dos jogos mais esperados do ano seguinte; porém, este ano houve algo que me fez recuar no entusiasmo. Nunca vi um Night City Wire do princípio ao fim, sendo que o único que tentei ver foi mesmo ao primeiro. Confesso que me aborreceu ver a jogabilidade do jogo, apesar de ter sempre em mente que, talvez, fosse daqueles títulos que seria necessário jogar para compreender a sua verdadeira essência, ao invés a tentar experienciar através de trailers cinemáticos ou de jogabilidade.

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Night City é, visualmente, o grande destaque deste jogo.

A hora chegou e, finalmente, coloquei os pés no mundo criado pelo estúdio polaco. O entusiasmo era, agora, considerável e os primeiros momentos foram passados (como todos os que pegaram neste título) a criar a minha personagem. Ora eu que até nem sou de perder muito tempo com estas coisas, acabei por levar cerca de 15 a 20 minutos em torno da criação de V, o nome da personagem principal (Sim, eu sei, 20 minutos a criar uma personagem é para meninos).

O jogo dá-nos a escolher a forma como iniciamos a nossa aventura: Nomad, Street Kid ou Corpo. Preferi começar o mais longe possível das luzes da ribalta, e isso fez-me escolher Nomad. O início foi algo estranho e longe do que esperava. Comecei numa oficina meio suspeita, perdida no meio de uma pequena comunidade (não merece ser chamada de cidade), e a ser atazanado por um polícia nada convencido e autoritário. As minhas respostas foram consideravelmente tortas, mas sempre com um toque de suavidade de forma a sair dali ileso (Isto porque não sabia quais seriam as consequências de uma frase ou outra mais torta). Uma vez fora dali, foi então que dei por mim a sentir, pela primeira vez, a liberdade de explorar e cheirar o mundo de Cyberpunk 2077. A condução da viatura foi das primeiras coisas que me cativou, tanto pelo seu fácil controlo, como por toda a paisagem que pude apreciar ao conduzir com a visão exterior na terceira pessoa. Estava, finalmente, a presenciar com os meus olhos o mundo tão falado dos últimos anos e a ansiar por descobrir todos os segredos que me esperavam no mesmo. Muito sinceramente, o que se seguiu foi um misto de sentimentos perante toda a experiência que tive. Para mais informações, é favor ler as próximas linhas.

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É impossível não parar o trânsito de forma a apreciar certas áreas da cidade.

Night City tem, visualmente, uma personalidade muito única

O mundo de Cyberpunk não é propriamente vasto, embora a CD Projekt Red tivesse avisado, de início, que tudo se focaria na verticalidade, o que, efetivamente, acontece. Seja como for, ainda assim, existem imensas atividades secundárias que podemos fazer, embora tenha sentido que a maioria não tenha qualquer tipo de interesse e estão ali apenas e só para tornar todo o mapa ainda mais atafulhado. Por outro lado, no que diz respeito às missões secundárias associadas às personagens com quem nos envolvemos na narrativa, essas sim, acabam por resultar em boas experiências, visto continuarmos a adicionar mais consistência à nossa relação com as mesmas.

Night City apresenta uma personalidade visual dentro do esperado, com imensos placares publicitários por todo o lado, e coberto de luzes encadeantes por tudo o que é canto. A cidade está dividida por zonas — onde se nota facilmente a diferença visual entre elas — com enormes edifícios nas zonas empresariais; a contrastar com locais mais pobres, ambos decorados de forma exemplar. Os locais mais ricos são, maioritariamente, locais mais limpos e apetrechados de tecnologia de topo, contrastantes com as zonas mais degradadas, rabiscadas com panóplias de graffitis, toneladas de lixo (e não só). Isto sem deixar de mencionar o deserto que foge por completo àquilo que caracteriza Night City como um todo. O areal é consideravelmente grande e acaba por dar um vibe de peças cinematográficas como Mad Max, o que, obviamente, é bom.

Mas não podia deixar de falar da parte visual sem mencionar todo o trabalho executado dentro de qualquer edifício. O nível de detalhe é incrível nas mais variadas instalações e se, por exemplo, em Ghost of Tsushima (Atenção! Um dos meus jogos favoritos de sempre!) comecei a encontrar o mesmo layout interior ao fim de umas duas horas de jogo, em Cyberpunk 2077 isto nunca chegou a ser notório. Nota-se, claramente, que o design dos interiores foi tido em conta, de forma a tornar Night City algo único, tanto a nível exterior, como interior.

Porém, nem tudo é perfeito. Infelizmente, mas talvez um pouco previsível, Cyberpunk 2077 é assombrado por diversos bugs, normalmente presentes num mundo aberto. Por outro lado, também posso dizer que os bugs nunca atrapalharam a minha experiência em Night City, isto porque nunca foram tão graves como os que começaram a aparecer nas redes sociais, nos primeiros dias após o seu lançamento. Quanto a mim, estamos a falar de telemóveis ou cigarros perdidos no ar, com a pessoa a falar ao telemóvel ou a fumar, noutro espaço mais ao lado. Inclusivamente, isso aconteceu quando estava a ter uma conversa com Johnny Silverhand, cara a cara. Fora isso, apenas uma situação pontual de posicionamento das personagens nas viaturas, sem esquecer a parte em que estava num carro a ser conduzido por alguém invisível, ao mesmo tempo que essa pessoa invisível falava comigo… isto numa missão principal.

Joguei na Xbox Series X e nunca tive qualquer crash, arriscando-me a dizer que o jogo estava bem melhor do que aquilo que estava à espera. É certo que joguei com a versão retro-compatível da Xbox One, mas beneficiei claramente da potência da nova máquina da Microsoft, em vários aspetos. Apesar disso, nota-se que estamos perante um jogo feito com base nas consolas da geração passada e ainda existe muito para melhorar. Entre o modo visual e performance, decidi jogar neste último e, tirando algumas partes com uma maior aglomeração de viaturas, o jogo sempre foi bastante fluído nesse aspeto. Nunca senti grandes problemas de frame rate, o que se deve também ao poder que uma consola de nova geração permite proporcionar.

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Johnny Silverhand teve os seus bons momentos, embora nunca tenha atingido o patamar que esperava.

Existe uma vasta personalização à vossa espera

Como RPG que é, obviamente que existe uma considerável árvore de habilidades, que nos permite personalizar a nossa forma de jogar. Quer seja como foco em combate, hacking ou stealth, entre outros, são várias as vertentes que permitem ao jogador abordar o jogo da forma que melhor se enquadra naquilo que pretende. Como hábito que é, acabei por me tornar em algo com eficácia no uso das armas (tornando aquilo num autêntico shooter), com pequenas capacidades de hacking e alguma força bruta para forçar a entrada em certos locais. A título de exemplo, dentro das skills relacionadas com armas, depois é possível escolhermos em quais os tipos de armas que nos queremos focar, seja metralhadoras, pistolas, caçadeiras, entre outras.

Logicamente que o crafting também marca presença no jogo; mas confesso que pouco o usei, para além de criar “medic kits”. Tendo em conta a qualidade de armas e itens que apanhava durante o jogo, senti que estava sempre bem composto daquilo que necessitava, abdicando assim de todo o sistema de criação que o jogo tinha. Para ser sincero, também nunca o achei muito intuitivo, um pouco como a skill tree em si, inicialmente.

A exploração da Night City acaba por ser aquilo que esperava, tanto a nível visual, com toda o leque de luzes, que já mencionei anteriormente, bem como toda a parte sonora (proveniente de tudo e mais alguma coisa). O “famoso” fumo a sair de algumas condutas de ar, ou os becos mais suspeitos e perigosos, apenas iluminados pelos neons da dúbia loja ao fundo da rua, tornam tudo mais verídico e é fácil associar algumas partes do jogo (porque não quase todas?) ao clássico filme Blade Runner.

Existem imensos detalhes interessantes no mundo, mas quero destacar um deles. Após determinados eventos relacionados com um indivíduo, pude presenciar um pouco da história do mesmo numa televisão num edifício por onde passava. A televisão estava lá, mas podia muito bem tê-la ignorado. Não o fiz e acabei por ganhar mais algum conteúdo sobre o mundo de Cyberpunk e respetiva personagem. São pormenores como este que podem fazer toda a diferença na maneira como interagimos com o mundo de Night City. Pode não parecer muito ao ler, pois só quem viveu os tais eventos é que poderá sentir o quão meticuloso este pormenor é.

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O design de alguns espaços interiores é incrível.

Não foram os bugs que me deixaram desapontado

No que diz respeito aos diálogos, achei que Cyberpunk 2077 não fez, ou pelo menos não senti, um trabalho de todo extraordinário relativamente às consequências. Seja lá qual fosse a minha resposta, achei que apenas oferecia uma forma diferente de dizer algo; sendo que, no final, não parecia ter qualquer consequência em termos práticos. Do que pude experienciar, só havia um maior efeito prático no caso de possuirmos certas habilidades, no mínimo exigido, para dar uma determinada resposta. Caso contrário, era mais do mesmo. Mesmo assim, o que obtinha de resposta não passava de algo banal e com a mesma mensagem final, apenas dita talvez de forma diferente. Para mim, não é que isto seja, de todo, um problema, mas esperava algo mais neste campo. Até posso estar enganado relativamente a esta situação, mas só posso falar daquilo que efetivamente experienciei. Terminei a narrativa em cerca de 20 horas, e adicionei mais algumas em conteúdo secundário, sendo estas muito menos do que esperava. Isto porque, como já mencionei anteriormente, não achei de todo interessante, mas sim, repetitiva, a quantidade de atividades secundárias presentes.

A inteligência artificial também está longe de ser brilhante, sendo facilmente os problemas percetíveis, principalmente na estrada. Os carros não são capazes de contornar obstáculos e, por qualquer coisa, ficam logo parados na via. Basta um peão estar no meio da estrada e já fica o trânsito todo encalacrado. A própria movimentação das pessoas na rua é estranha e atabalhoada. Acaba por ser mais um aspeto onde dá a entender que o trabalho não ficou terminado, de todo.

Falando agora um pouco das personagens principais, achei o leque consideravelmente fraco e pouco memorável. Tirando talvez duas a três caras, onde uma delas até desaparece bastante cedo na história (e que teria potencial para ser talvez a mais marcante), tudo o resto é bastante insípido. Nem o próprio Johnny Silverhand acaba por ter a presença que imaginava que tivesse. Sem querer revelar muito sobre a sua posição (isto para quem possa não ter não jogado), é estranho a forma como o mesmo foi inserido na história, mas nem é isso que o coloca em causa. É toda a sua personalidade e maneira de estar nas situações que me fez desligar, quase na totalidade, sobre a sua suposta importância na narrativa. E, acreditem, é bem mais do que pensava inicialmente.

No que diz respeito à narrativa, no seu geral: as minhas expectativas eram algumas, mas  admito que acabei maioritariamente desiludido. A história tem bons momentos, mas estão longe de surpreender ou de sequer atingir aquilo que de melhor se fez este ano, ou, até arriscaria dizer, nos últimos anos. Apesar dos vários finais possíveis, não existe qualquer momento “wow” que me deixasse na ponta da cadeira (neste caso, sofá) e com os olhos a necessitar de fechar porque estavam a ficar demasiado secos. Isto sem mencionar os tais gangues que foram publicitados várias vezes pelo estúdio. Onde é que andavam no jogo? Bem, na narrativa principal é que quase não foi, de certeza. Admito, esperava muito mais neste campo; esperava envolver-me mais com cada um deles de forma imposta pela narrativa, e não simplesmente através de missões secundárias, as quais, muito sinceramente, não me satisfizeram no que diz respeito a este envolvimento.

Será que fui alvo de uma promessa de “mundos e fundos”?

Cyberpunk 2077 é um autêntico circo de emoções. Night City apela fortemente à sua exploração com um visual fantástico e imenso conteúdo disponível, apesar de este último ser pouco inovador ou, se preferirem, interessante. A narrativa é extensa o suficiente e dá a conhecer diversos personagens, embora, no final, não haja nem um que se tenha tornado num dos meus favoritos nos videojogos (nem o próprio Johnny Silverhand interpretado pelo carismático Keanu Reeves). Porém, como RPG, não tenho nada a apontar, pois faz tudo aquilo que lhe era pedido: diversas skill trees que permitem personalizar a nossa forma de jogar, um sistema de crafting, variadas opções de diálogo (mesmo que possuam pouco efeito prático), entre outras mecânicas. Acima de tudo, e na minha humilde opinião, não é o jogo que a CD Projekt Red publicitou nos últimos anos como algo grandioso e inovador. Não, peço desculpa, mas simplesmente não é. Para mim, e por mais que isto me custe a dizer, diria que é a minha desilusão dos últimos anos.

positivo Cidade bem recriada com excelentes pormenores
positivo Vasta skill tree oferece boa personalização
positivo Bom voice acting

errado Maioria das personagens principais são insípidas
errado Narrativa desapontante
errado Missões secundárias banais
errado Imensos bugs (embora não tenham perturbado a minha experiência)

Data de Lançamento: 10/12/2020
Produtora: CD Projekt RED
Editora: CD Projekt RED
Género: RPG
Disponível para: PC, Google Stadia, Xbox One e PS4 (Xbox Series S|X e PS5 através de retro compatibilidade)

Foi disponibilizada uma cópia do jogo para análise por parte da Xbox Portugal.

Autor: Pedro Simões

Um apaixonado por videojogos e apreciador de anime. Por vezes, possuidor de opiniões pouco populares. @bakum4tsu

2 pensamentos

  1. Opa, bela resenha, to no começo do jogo, acho que tem umas 20 horas, de fato tem muitos bugs, mas até aqui não atrapalharam a experiência, a história “principal” é bom, gostei, mas as diversas narrativas que correm paralelas acho que constroem de fato o “mundo aberto”, a vida em night city. Precisa melhorar o gráfico, jogo no Xbox one s, e precisa arrumar bugs que são “bobos” e até por isso não precisariam estar ali, não sei se foi pressa ao lançar antes da hora, apesar do longo tempo de produção, mas enfim, minha experiência tem sido muito mais positiva do que negativa. Abraço!

    Liked by 1 person

    1. Obrigado pelo comentário. Sim, as narrativas secundárias acabam por dar mais alguma profundidade à Night City, mas também ficar a conhecer melhor algumas das personagens principais. Ainda bem que estás a gostar até ao momento, não é de todo um mau jogo. Apenas ficou aquém das expectativas para mim. Esperava mais depois de tudo o que publicitaram do jogo e também depois de todo o sucesso do Witcher 3.

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