Brigandine: The Legend of Runersia – Análise

Brigandine The Legend of Runersia análise

O género TRPG, ou SRPG, tem tido altos e baixos muito pronunciados ao longo da sua existência. Originado no primeiro Fire Emblem para a NES, ganhou depois algumas contribuições relevantes na época dos 16bits onde surgiram nomes como Shining Force e Langrisser. O fôlego estendeu-se um bocado pelos 32bits onde recebemos, por exemplo, Sakura Wars, Mystaria, Vandal Hearts, Tactics Ogre e um tal de Brigandine: The Legend of Forsena. No entanto, a existência dos TRPGs mainstream ficou essencialmente por aí. Apenas Final Fantasy Tactics conseguiu inspirar mais uma ressurgência deste subgénero no mercado mobile, onde se seguiram vários títulos com qualidade em vários sistemas. E acabou aí.

Nas últimas gerações, temos visto pouco mais que a série Disgaea a ter algum impacto. A Atlus trouxe-nos Stella Glow e a Bandai Namco criou Project X Zone, mas sem fazer grande estrondo. Até o próprio Fire Emblem estava a “ir pelas ruas da amargura”, objeto de persistentes rumores que davam a série como acabada devido à falta de vendas e de sucesso. Mas eis que chega Fire Emblem: Three Houses. A mais recente entrada da série, apresentada ao ocidente através das presenças de Marth e Roy em Super Smash Bros, é um dos verdadeiros jogos de topo da última geração. Veio dar uma verdadeira lufada de ar fresco ao estilo, trazendo para uma maior prominência títulos como Fell Seal: Arbitrer’s Mask ou Tears of Avia, produtos de um mundo indie que nunca deixou de apostar no género. Isto, até que, em 2020, recebemos com muito agrado este Brigandine: The Legend of Runersia, sequela direta do título da PlayStation… com nada menos que vinte anos!

Brigandine The Legend of Runersia_01
Grelha hexagonal, monstros e generais humanos, tudo num mundo de fantasia. Esta é a premissa de Brigandine.

 

A jogabilidade mantém-se a mesma do título original, com as ideias base a permanecerem intactas. Temos um mapa com castelos e fortalezas, divididos por vários estados soberanos, e o objetivo é chegar ao controlo de todos. Os aficionados de jogos de estratégia já conhecerão muito bem esta temática que, invariavelmente, envolve gestão de recursos e de exércitos. Em termos de ideologia e de vertentes relacionadas com a jogabilidade, diria que este jogo é uma evolução moderna com traços do antigo Dragon Force (Sega Saturn), de Gemfire (Mega Drive e Super Nintendo) e Master of Monsters (Mega Drive).

De Dragon Force e Gemfire, temos em comum um mundo de fantasia com vários reinos espalhados pela terra que passaram algum tempo em relativa harmonia, mas cujos desenvolvimentos recentes espoletaram a guerra que faz parte do enredo do jogo. Estes são geralmente comandados por alguém que recebeu um poderoso pertence da figura divina da sua respetiva narrativa, recebendo assim uma espécie de “autorização” popular para exercer a sua autoridade num determinado espaço de terra. Em Brigandine, esses pertences são epónimos do título do jogo, e há um total de cinco: os líderes do Reino de Norzaleo, República de Guimoile, Tribo Shinobi, Teocracia Mana Saleesia e as Ilhas Unidas de Mirelva. Cada um destes tem um “Brigandine”, mas o Santo Império Gustava desafia as probabilidades e, apesar de não possuir nenhum dos pertences divinos, mantém-se forte.

Brigandine The Legend of Runersia_02
Todas as seis nações jogáveis têm uma história extensa e bem conseguida, que não define “heróis” nem “vilões”. Tudo depende da perspetiva do jogador.

Também visto em Dragon Force, os nossos exércitos giram à volta de um número de comandantes – indivíduos com habilidades e capacidades fora do normal e que gerem uma pequena armada. A maioria destes começa associado a uma das nações presentes no jogo, mas, cumprindo quests específicas, progredindo em certas direções no jogo ou até derrotando oponentes, conseguimos recrutar um número maior de apoiantes à nossa causa.

Agora falta aquilo que dá um toque diferente ao jogo: as duas partes referentes ao Master of Monsters. Primeiro que tudo, os monstros! Em Brigandine, as vastas armadas humanas foram trocadas por variadas criaturas como o centauro, o ciclope, o goblin, demónio, o anjo, o homem-lagarto, o unicórnio, e a lista vai por aí adiante. Escusado será dizer que cada um destes tem as suas próprias habilidades, e como cada general apenas terá acesso a um punhado de monstros para o seu esquadrão, é geralmente boa ideia manter algum equilíbrio entre as unidades.

As batalhas decorrem também numa grelha hexagonal. Cada hexágono tem as suas próprias particularidades que afetam diretamente os atributos de todas as unidades que passam por lá. Por exemplo, os pântanos favorecem um homem-lagarto, mas uma planície, por outro lado, já favorece unidades com pior mobilidade, como um ciclope.

Brigandine The Legend of Runersia_03
A variedade de ângulos disponíveis para apreciar as batalhas dá um toque extra de imersão.

No fim de contas, o que Brigandine: The Legend of Runersia apresenta é uma evolução natural da sua prequela. As melhorias são consideráveis em termos de grafismo e interface, aproveitando para criar um mundo lindíssimo, colorido e fascinante, com as novas possibilidades e recursos que os sistemas atuais disponibilizam. A história do jogo pode não ser revolucionária, mas serve muito bem o género de fantasia e é cativante quanto baste para impelir os jogadores a progredir. A jogabilidade em si fica muito semelhante, tratando-se apenas de um refinamento em relação à versão anterior, com algumas pitadas de originalidade aqui e acolá.

Fica uma sensação que o jogo poderia ter sido mais ambicioso e ido para além das ideias tradicionais do género, tal como foi Fire Emblem: Three Houses na sua elaboração do mosteiro de Garreg Mach – uma verdadeira “pedrada no charco” cheia de profundidade que agitou o mundo temperado dos TRPGs. É, no entanto, injusto comparar os recursos que a Nintendo teve ao seu dispor para desenvolver Fire Emblem muito além das suas anteriores barreiras, e aqueles que a Matrix Software teve para criar este título.

A polidez e a maneira como encaixam as diferentes ideias, faz com que este seja uma alternativa interessante para os fãs do género e é, sem dúvida, altamente recomendado àqueles que gostam de conquistar um mundo de fantasia, uma batalha de cada vez. No entanto, os jogadores habituados a títulos AAA, terão de manter as expectativas a um nível mais razoável – este é daqueles exemplos claros em que “o que se vê é o que se tem”, sendo que o jogo tem uma complexidade interessante para um padrão indie, mas que não aprofunda muito em relação àquilo que experienciamos nas primeiras horas de jogo.

positivo Mistura de várias ideias presentes em jogos semelhantes, numa conjetura que faz sentido
positivo Polidez acima da média
positivo Apresentação visual cativante

errado Falta de profundidade além da jogabilidade principal

Data de Lançamento: 10/12/2020
Produtora: Matrix Software
Editora: Happinet
Género: Tactical Role Playing
Plataformas: PlayStation 4, Nintendo Switch

Foi disponibilizado um código para análise. (PS4)

Autor: João Pires (Ravsieg)

Maluco que cresceu com a SEGA e adora os jogos da era da Saturn, agora faz rádio sobre eles. Ex-profissional da indústria com o sonho de voltar. Venham jogos de desporto, de corrida, "fighters" ou TRPGs! Ah, e Virtual On é BAE. :D

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.