Os Filmes de Makoto Shinkai

os filmes de makoto shinkai

Se, por acaso, nunca ouviram falar de Makoto Shinkai, então é porque, muito provavelmente, vivem completamente alienados da realidade do entretenimento, cinema, ou, em último caso (e de forma que posso considerar aceitável), do vasto mundo da animação japonesa. Por outro lado, e na pior das hipóteses, é bem possível que conheçam o seu nome pelo filme que o catapultou para as bocas do mundo em 2016: Your Name. Mas já lá vamos.

A primeira vez que me cruzei com o nome Makoto Shinkai foi ainda antes da sua primeira longa metragem ter saído no Japão. Estava algures entre 2003/2004 e o título era The Place Promised in Our Early Days. Recordo-me de ficar pasmado ao ver o trailer; tanto pelos seus visuais, como pela música em si. Era algo muito distinto comparativamente ao que se via naquele tempo e foi-me impossível ficar indiferente. Hoje, recordo essa altura com extrema nostalgia, muito pelo facto de poder afirmar que acompanho a sua carreira desde há muito tempo (isto porque, obviamente, fiquei fã assim que vi esse primeiro filme). Mas antes deste título de que vos falo, Makoto Shinkai já tinha lançados outros pequenos projetos, onde o grande destaque vai para Voices of a Distant Star; filme o qual, se bem me recordo, só vi já algum tempo depois. Este é uma curta, tal como muitos dos seus projetos iniciais. Na verdade, curtas são algo presente no seu currículo desde cedo, incluindo diversos anúncios publicitários (mais recentes), os quais aconselho a ver se vos for possível e do vosso agrado.

garden of words vida real
Um exemplo da veracidade de alguns dos cenários do The Garden of Words.

Há várias coisas que aprecio nos filmes de Makoto Shinkai, mas, se tiver que destacar algo em específico, será o seu magnífico olho para os incríveis detalhes nos cenários. Embora esteja longe de ter sido o seu primeiro trabalho, acho que foi em Garden of Words que este aspeto se fez notar de uma forma surreal. Confesso que sinto uma enorme ligação pessoal com o filme, porque o vi poucos meses antes de ter visitado o Japão e, também, de ter estado no local onde o mesmo se passa durante a maioria do tempo – o jardim Shinjuku Gyoen (fun fact: o hotel onde permaneci em Shinjuku, ficava a 7 minutos a pé deste parque, o que foi pura coincidência pois já estava marcado antes de ter visto o filme. Juro. Foi mesmo). Essa ligação também existe porque reconheci muitos locais do filme no parque, o que para os filmes de Makoto Shinkai é já algo normal e expectável. Se isto teve um maior destaque em Garden of Words, então foi em Your Name que disparou para outros níveis de impacto, ao ponto de muitos fãs se deslocarem à famosa escadaria que aparece no final do filme (para tirarem fotos, claro); e quem diz a escadaria, diz todos os outros locais de Tóquio que foram fielmente representados. Isto não é exclusivo deste realizador, até porque é algo que começa a ser prática comum, mas não deixa de ser importante mencionar a partir do momento em que o impacto toma outras proporções, nomeadamente ao nível turístico.

O realizador é conhecido por criar histórias, maioritariamente, focadas em relações. Porém, ao contrário do que muitos possam pensar, nomeadamente para quem nunca viu os filmes, são relações que nunca (ou muito raramente) têm finais felizes. Em muitos casos, são relações afetadas pela distância forçada pelo avançar da idade e o desenrolar da vida. Principalmente nos seus primeiros filmes, as personagens começam como jovens crianças e acabam como jovens adultos, onde os acompanhamos na rápida evolução do seu quotidiano, passando, muitas vezes, dos calmos dias do ensino básico e secundário, para as tribulações que o ensino superior e vida profissional trazem. Estas mudanças são muitas vezes acompanhadas pela separação, e é o distante contacto entre as personagens que tem direito ao palco principal.

A forma como a passagem de tempo nos é dada com o avançar das estações do ano, acaba por transmitir ainda mais a sensação de dor e nostalgia que é vivida pelas personagens, tudo isto sempre de mão dada com incríveis cenários e acompanhamento sonoro perfeito. O Inverno, como estação mais triste que é (de uma forma geral, embora eu adore), acaba sempre por ter uma enorme presença metafórica nos seus filmes (embora que, nos mais recentes, isso já não se verifique), o que amplifica ainda mais a mensagem da dolorosa distância. Confesso que este tipo de filmes mais tristes (live-action ou anime) raramente fazem parte da minha escolha para consumo, mas há algo nestas produções que respira qualidade. Obviamente que o serem “tristes e melancólicos” é mais a minha opinião, não quer dizer que a mesma seja sentida por outras pessoas.

Os filmes mais recentes continuam com foco de atenção virado para a relação entre pessoas; mas, na minha opinião, com um vibe mais alegre e suave que os seus anteriores trabalhos. Makoto Shinkai já referiu, por várias vezes, que os seus filmes representam muitas das suas relações, rejeições ou amores falhados nos seus tenros anos. Tendo isso em conta, consigo perceber facilmente que os dois últimos filmes, com um contorno diferente (como já dei a entender), podem muito bem simbolizar a sua atual vida pessoal, agora mais estável (e já com uma filha!). Poderia comparar isto a uma banda de metal que tem um início de percurso muito agressivo musicalmente e que, com o tempo, vai suavizando o seu som (o que não é um problema, obviamente).

Mas sem querer estender esta (já longa) introdução, incluindo alguma retrospetiva da minha pessoa, aqui fica a lista de filmes realizados por um dos mais conceituados realizadores de animação japonesa.

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Voices of a Distant Star

Das várias curtas que fez, esta é a primeira “grande” produção que teve em mãos, apesar de ter apenas 25 minutos. Foi, de forma incrível, produzido quase inteiramente pelo próprio Shinkai, onde até as vozes das duas personagens, eram a sua e a da sua actual esposa.

Voices of a Distant Star consta a história de dois amigos que são separados por motivos de força maior. A rapariga é destacada para combater no espaço e a única forma de comunicação passa a ser somente por mensagens. Ao estar no espaço, as mensagens levam mais tempo a ser entregues, aumentando o intervalo em meses até isso acontecer. Isto faz com que o momento em que recebam as mensagens, o conteúdo das mesmas acabe por já não fazer sentido. Apesar da curta duração, é um filme que mostra desde cedo o seu foco como realizador. A animação, embora tenha traços facilmente reconhecíveis dos seus filmes de hoje em dia, acaba por estar um pouco datada. Ainda assim, caso não tenham visto, então aconselho a fazerem-no.

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The Place Promised in Our Early Days

Tal como já tinha mencionado inicialmente, este foi o primeiro filme que vi de Makoto Shinkai e, por essa mesma razão, tem um sentimento especial para mim. Apesar disso, não o considero como um dos meus favoritos, pois a maioria dos seus recentes trabalhos têm sido quase sempre superiores. Relativamente ao enredo, três amigos decidem visitar uma enorme torre, a qual faz parte da paisagem das suas rotinas diárias. Após encontrarem um velho avião, decidem começar a restaurá-lo de forma a fazer a tal viagem. Porém, durante um verão, a rapariga do grupo desaparece sem deixar rasto e o sonho da viagem em conjunto começa a desvanecer. Os anos passam e os dois amigos acabam por seguir caminhos diferentes. O que será que aconteceu à rapariga? Será que irão fazer a viagem?

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5 Centimeters per Second

Muito sinceramente, este é que o filme que me deixa no fundo dos barris com elevados níveis “depressivos”. A banda sonora destrói facilmente o meu core e confesso que é um filme que evito ver, especialmente por ser uma produção que me transporta para uma timeline da minha vida onde a nostalgia é um autêntico tsunami a entrar terra adentro, após um sismo de extrema intensidade. Apesar desta violência descritiva, é um filme que gosto bastante (para mal dos meus pecados). Está dividido em três partes distintas, mas sempre com foco no mesmo rapaz. Cada uma destas partes tem lugar durante uma determinada fase da sua vida, sendo os dois primeiros durante o seu tempo de escola, e o último já envolvido no mercado de trabalho. Takaki, o rapaz em destaque, nunca conseguiu superar a paixão da sua infância, um pouco como a outra cara metade. Porém, o tempo avança sem esperar por ninguém e a vida de cada um toma o seu rumo, mas onde a dor nunca foi derrotada pelo seu maior inimigo: o tempo. Seria engraçado dizer que este filme tem um final feliz… Mas acho que vão ter que ver por vocês próprios, para ver se é o caso.

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Children Who Chase Lost Voices

Para mim, este é o filme de Shinkai com maiores contornos de fantasia. Diria mesmo que se aproxima das produções do Studio Ghibli, pois a personagem principal é transportada para um mundo chamado Agartha, o qual, na verdade, foge totalmente ao que o realizador nos tinha proporcionado até à data. Por fugir um pouco à regra, sinto que perdeu um pouco da magia que aprecio em Makoto Shinkai, embora um dos seus pilares continue presente: a ligação entre as pessoas. Porém, desta vez, afasta-se um pouco aos contornos amorosos, focando-se mais numa amizade que nos transporta para todo um mundo misterioso, habitado por criaturas a la Miyazaki. Acima de tudo, há algo que não nos deixa dúvidas sobre o quão “Shinkai” este filme é e isso recai sobre a palete de cores presente, a qual é, indubitavelmente, uma imagem de marca de todos os seus filmes.

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The Garden of Words

Depois de várias longas metragens, eis que Shinkai regressa a algo mais curto, mas onde a qualidade em nada sofre. Na verdade, sinto que, quando apareceu, The Garden of Words era o filme do realizador com mais deliciosos detalhes nas animações. Esta curta foca-se em Takao Akizuki, um rapaz que deseja ser criador de sapatos e, num dos seus passeios por um dos famosos jardins de Tóquio, acaba por se cruzar com uma jovem um pouco mais velha que ele. A partir desse momento, e sem combinar, ambos aparecem no mesmo local desse jardim em dias de chuva (sim, é estranho). Porém, com o passar da época de chuva, os dois deixam de aparecer no parque e cada um prossegue com a sua vida. Mais do que a narrativa em si, são os visuais deste pequeno filme que merecem grande destaque, com uma representação bastante fiel de determinadas zonas de Shinjuku e dos habituais cenários de Shinkai nas suas produções. Se quiserem algo de rápido consumo do realizador, então esta é uma excelente proposta.

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Your Name

Este é, sem margem para dúvidas, o filme que projetou o nome de Makoto Shinkai para o mundo. Após bater inúmeros recordes de bilheteira (e não só), Your Name é um nome facilmente reconhecido pela maioria dos fãs de anime. O filme concentra-se em duas personagens, Mitsuha e Taki, uma rapariga e um rapaz que, do nada, começam a trocar de corpos. Mitsuha vive no campo e está entediada da sua vida no mesmo, desejando um dia poder ir viver para Tóquio. Do outro lado, temos Taki, o rapaz que vive na capital e enleado no ritmo frenético da mesma. De um dia para o outro, ambos começam a trocar de corpo, mas, se ao início pensavam ser apenas um sonho, tudo começa a tornar-se real quando os respetivos amigos começam a relatar estranhos eventos. Até aqui, tudo parece encaminhado para um filme normal, mas o melhor estava para vir. A partir de determinado momento, o ritmo do filme toma outros contornos, transformando-o num interessante mistério por revelar e algo mais. Quer gostem ou não do filme, uma coisa é certa: Your Name faz agora parte da lista de filmes obrigatórios a ver de animação japonesa.

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Weathering with You

Weathering with You é o mais recente trabalho de Makoto Shinkai e, embora não tenha superado o sucesso do anterior, é um filme com imensa qualidade em vários aspetos. A história centra-se em Hodaka, um rapaz que se vê envolvido com uma rapariga que é capaz de alterar o estado do tempo. Existe todo um interessante e caloroso conjunto de personagens presentes na narrativa, e com algumas surpresas pelo caminho, principalmente para quem viu Your Name. Visualmente, é do melhor que já se viu ao nível do realizador japonês, continuando a apresentar muitas das suas características na melhor forma possível. De certo modo, Weathering with You retrata a evolução da vida de um jovem (no seu percurso para adulto), e todas as batalhas e desafios que trava ao deslocar-se para fora da sua zona de conforto. Confesso achar o filme um pouco extenso demais, onde as quase duas horas, poderiam, na minha opinião, ser encurtadas para hora e meia. Seja como for, a qualidade é indiscutível. Nada como ver.

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E, assim termino um texto que me deu imenso prazer escrever, ou não fosse Makoto Shinkai um dos meus realizadores favoritos desde há muitos anos. Sem querer alongar muito mais, quero salientar, uma última vez, a qualidade dos filmes de Makoto Shinkai e como este será um nome que iremos continuar a ouvir falar durante muito tempo. O seu tipo de filme poderá não ser do agrado de todos, mas a verdade é que já não se pode falar de animação japonesa sem se referenciar o seu nome. Agora, a questão é: já viram alguns destes filmes?

Autor: Pedro Simões

Um apaixonado por videojogos e apreciador de anime. Por vezes, possuidor de opiniões pouco populares.

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